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É HORA DE REPENSAR (E RENEGOCIAR) A HUMANIZAÇÃO

É HORA DE REPENSAR (E RENEGOCIAR) A HUMANIZAÇÃO

Os agitos da vida urbana e contemporânea tem resultado em inovações que cada vez mais facilitam o dia a dia das pessoas, por meio de soluções que prezam por agilidade, praticidade, inclusão, acessibilidade e segurança. Quanto mais a tecnologia avança, mais o ser humano se encontra em um ambiente cercado de aparatos que prometem entregar-lhe uma vida cada dia melhor. Mas será mesmo que a tecnologia, por si só, é o grande herói da humanidade?

Muito se tem discutido, recentemente, sobre como os aspectos da hiperconectividade estão trazendo uma espécie de estafa coletiva às pessoas. Os índices de distúrbios em saúde mental não mentem, mas para além dessa questão, os números no mercado também não: ao mesmo tempo em que a internet e a inclusão digital continuam se difundindo mundo afora, nos grandes centros já é possível notar uma população freando seu ritmo alvoroçado de consumo e comunicação.

Sedenta por um lifestyle mais minimalista, essa parcela do público que tem passado a dar prioridade a negócios responsáveis, confiáveis e inclusivos, têm funcionado como uma "influenciadora de tendências do público de massa". Isto é, à medida em que ela vai transformando seu próprio cotidiano com atitudes mais conscientes, o seu entorno social também se sente inspirado por essas ações, tornando-as gradualmente a regra ao invés da exceção. Outras palavras-chave que também contemplam o mindset são: descanso, tranquilidade, privacidade, sustentabilidade, ética, vínculos afetivos e valor humano. Juntos, esses princípios impulsionam uma significativa desconexão online e reconexão offline, tornando-se os grandes pilares da macrotendência (Re)Humanização Globalizada do Guia de Tendências 2020-21 do SEBRAE.

Seguindo esse direcionamento, alguns negócios têm se tornado destaque para o público recentemente. O Desrotulando, um aplicativo que analisa rótulos de alimentos, conquistou muito de seu espaço no mercado justamente por entregar ao usuário a informação acessível e transparente que ele tanto procura. Fundado oficialmente em 2016, o aplicativo escaneia códigos de barras de embalagens de produtos alimentícios, a fim de esclarecer ao consumidor sua qualidade em questões nutricionais. Com isso, o app gera uma nota final referente ao produto, e destaca os principais pontos positivos e negativos a respeito dos ingredientes utilizados em cada um.

O objetivo é tornar essas informações mais acessíveis e de fácil compreensão. "Todo mundo quer se alimentar de maneira mais saudável, mas o conceito de saudável varia para cada um, e a maioria das pessoas não tem conhecimento suficiente. Para ajudar, os rótulos na maioria das vezes não possuem linguagem adequada, a legislação é cheia de brechas, e muitas vezes os fabricantes acabam se aproveitando disso", conta Gustavo Haertel Grehs, um dos criadores do app. "A questão do tempo também é bastante forte: as pessoas querem se alimentar de forma mais saudável mas não têm tempo para analisar todos os rótulos quando fazem compras. Nós simplificamos essas informações através de uma classificação por nota (de 0 a 100), por diferenciações com cores, e com uma linguagem que, mesmo que contenha embasamento científico, é o mais descomplicada possível", completa.

Telas de interface do aplicativo Desrotulando

O que poucos sabem é que, na verdade, o Desrotulando é a evolução de um projeto anterior — o blog Fechando o Zíper, criado em 2012 por Gustavo (bacharel em Ciências da Computação), Carolina Grehs (nutricionista) e Samanta Peixoto (também nutricionista, mas que posteriormente se desvincularia do projeto). A página, que inicialmente era focada em dieta e vida social, foi se transformando à medida que o público interagia e os criadores percebiam novos interesses. Gustavo conta também que, em dado momento, o público começou a enviar fotos de rótulos dos produtos que consumia, pedindo para que a equipe os avaliasse. Atender a essa demanda deu tão certo que no ano seguinte (2013) o blog acabou se transformando em um site de reviews que disponibilizou diversos produtos categorizados, sendo possível ainda compará-los entre si.

Com um crescimento que, segundo Gustavo, costumava ocorrer de forma orgânica, o projeto tomou proporções cada vez maiores, de modo que a equipe passou a ser convidada para ministrar diversas palestras, participar de eventos e, inclusive, dar entrevistas. E foi em uma breve aparição para uma reportagem no Jornal Nacional que o projeto viralizou pela primeira vez, chegando a deixar a página fora do ar devido aos acessos massificados. A partir daí os fundadores não tiveram dúvidas: as pessoas realmente estavam interessadas no assunto.Gustavo Grehs e Carolina Grehs, fundadores do Desrotulando | Imagem: Desrotulando - Acervo

Casados, Gustavo e Carolina seguiram com o projeto mesmo após a saída de Samanta e, por uma decisão pessoal, também se mudaram para o Canadá em 2016. De lá, finalmente oficializaram a criação do Desrolutando, onde encerraram as atividades do Fechando o Zíper para cuidar integralmente do aplicativo. Foi apenas nesse momento que o casal passou a administrar o projeto em período fulltime, que até então era levado apenas como uma atividade paralela por ambos. "A gente teve muitos desafios, desde definição de critérios, até a criação de um banco de dados do zero... Diversas coisas que à medida que fomos fazendo, percebemos que estavam nos colocando em uma situação onde sabíamos que a qualquer hora o app poderia 'explodir'", relata Gustavo. E ele tinha razão: em uma manhã casual de Janeiro de 2019, o casal acordou e se deparou com a caixa de e-mails lotada por novos cadastros.

A explicação para a segunda viralização, no entanto, não é tão provável quanto a primeira: tudo aconteceu porque um usuário de Goiânia/GO, empolgado com o aplicativo, gravou um vídeo para o grupo de sua família com o intuito de apresentar a novidade às suas irmãs. Três dias depois, sem ter ideia do que havia ocorrido, sua vizinha lhe abordou: "Eu vi o seu vídeo!". Foi então que o rapaz descobriu que sua família havia compartilhado o arquivo em outros grupos pessoais e que, com isso, o seu vídeo acabou viralizando inesperadamente. Graças a esse incidente, o Desrotulando passou a ficar entre os mais baixados no Google Play e na Apple Store por aproximadamente 8 dias, e desde então o projeto alavancou, tendo atualmente mais de 1 milhão e 200 mil downloads registrados.

Gustavo acredita que existe uma tendência na indústria para transparência e saúde, e que esse é um caminho sem volta. "Atuamos às vezes até como defensores de alguns produtos da indústria, pois mostramos os produtos que são bons e os que não são tão bons. Estamos trabalhando para educar as pessoas: se é para apontar pontos negativos e porque aquele produto não é bom, faremos isso, mas cabe ao consumidor decidir o que fazer com essa informação", conclui Gustavo.

Além de alimentação saudável e transparência de informações, outras causas que têm mexido com a motivação do público são as de redução da produção de lixo e as de cuidados mais efetivos com o meio ambiente. A organização internacional sem fins lucrativos Let's do It, criada na Estônia em 2008, certamente deve muito de seu crescimento global ao interesse do público. A instituição já possui representantes em mais de 150 países, focados no objetivo de conscientizar e mobilizar a população para atitudes proativas quanto ao descarte de lixo, e de estabelecer um diálogo entre governo, empresas e cidadãos. No Brasil, o Instituto Limpa Brasil é o grande encarregado deste desafio.

 

Imagem: Instituto Limpa Brasil - Acervo

Atualmente contando com mais de 20 colaboradores, o Limpa Brasil surgiu em meados de 2010 graças à iniciativa de Marta Rocha, que frequentou o Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade naquele ano e voltou para casa inspirada pelas ideias da Let's do It. Com a versão brasileira oficialmente fundada, Marta deu o pontapé inicial já em escalas ambiciosas: levou as ações do instituto para 14 cidades brasileiras. Segundo Edilainne Muniz, coordenadora nacional do Limpa Brasil, a aposta de Marta era que isso trouxesse bastante visibilidade ao projeto — e ela estava certa. Em Goiânia, por exemplo, entre um e dois anos de Limpa Brasil, já era possível contar com mais de 10 mil professores escolares capacitados.

Apesar do grande alcance das ações da Limpa Brasil, havia ainda algo inquietando os organizadores: a aplicabilidade prática para o público. "Hoje, na sociedade, há uma adesão bem grande a esses movimentos, mas as pessoas ainda encontram dificuldades para colocar a mão na massa. Informações em excesso acabam atrapalhando; por isso elas devem ser sempre rápidas, fáceis e objetivas", conta Edilainne.

Algum tempo depois, a Let's do It lançou um aplicativo e, com isso, passou a organizar um evento chamado "Dia da Limpeza". A ideia era reunir a população para identificar pontos de lixo irregular pelas cidades e recolhê-los, a fim de realizar o descarte correto. Mas os olhares da mídia se voltaram espantados para o evento apenas em 2017, quando a organização propôs que o Dia da Limpeza fosse realizado em todos os países com representantes Let's do It ao mesmo tempo — ou seja, em pelo menos 150 países diferentes. Atingindo o marco de mais de 18 milhões de pessoas saindo de suas casas para limpar o planeta simultaneamente, o evento foi por fim renomeado para Dia Mundial da Limpeza (ou World Clean Up Day).

 

Participantes no Dia Mundial da Limpeza | Créditos: Instituto Limpa Brasil - Acervo

 

Para Edilainne, é nas ações em grupo que moram as grandes oportunidades. "Durante essas atividades percebemos uma interação de muito apoio entre as pessoas. Elas enxergam um propósito em comum, e esse propósito as conecta de modo que a mobilização ganha muito poder. A gente que se importa com isso acaba não se sentindo mais tão só, e ficamos muito mais motivados", observa. Em decorrência da mobilização global da Let's do It, a Limpa Brasil recentemente tem recebido contatos de empresas como Leroy Merlin, Carrefour, UP Brasil, Decathlon e Unilever para parcerias e afins.

Em escalas menores, mas ainda sobre consciência ambiental e de autorresponsabilidade, no Paraná a Oficina de Fine Arts é exemplo em reaproveitamento de madeiras e materiais diversos. Encontrados na rua ou doados pela comunidade, a "nova" matéria-prima é utilizada para criar móveis autorais ou sob encomenda pelo australiano Nathan, que se mudou para o Brasil há aproximadamente 8 anos. Num estilo que mescla o rústico e o contemporâneo, Nathan ressignifica o que poderia estar abandonado e poluindo o meio ambiente em caprichosos objetos de decoração, levando aos espaços contemplados uma atmosfera aconchegante e conectada à natureza que só o handmade é capaz de trazer. A fim de tornar o negócio mais familiar e estreitar as relações com o público, o marceneiro também organiza pequenos eventos em sua oficina, onde promove workshops para a comunidade e reúne outros negócios da região com veia similar a do seu negócio — artesanal, sustentável e responsável.

Ainda na capital paranaense, os novos valores de consumo também estão abrindo portas e cedendo uma notável fatia do mercado gastronômico aos restaurantes veganos. É o caso do Vegveg, o primeiro empório vegano do Brasil (inaugurado em 2013), que atualmente opera também como café e restaurante. Entre os produtos oferecidos, desenvolvidos sem nenhum ingrediente de origem animal, estão massas, chocolates, tortas, bolos, salgados, e até mesmo queijos e embutidos vegetais. Além disso, no horário do almoço o local serve diariamente um prato do dia, que sempre acompanha uma entrada de salada e um suco.

Mas nenhum negócio precisa se limitar apenas aos pontos físicos de estabelecimentos, e a Fazenda Futuro está aí para provar: a foodtech brasileira ganhou muitos holofotes após o lançamento do seu hambúrguer vegetal, que é comercializado em supermercados de diversas cidades do Brasil. O Futuro Burger é um hambúrguer produzido com grão de bico, proteína isolada de soja, proteína de ervilha e beterraba (essa última para agregar a cor de "sangue" dos hambúrgueres tradicionais), e promete entregar não só a mesma aparência, mas também a mesma textura, suculência e sabor da carne animal. Outro fator interessante da Fazenda Futuro é que a empresa também utiliza inteligência artificial no desenvolvimento de seus produtos, estudando as moléculas que os compõem e fazendo testes sensoriais para calcular a quantidade ideal de cada ingrediente. Segundo Marcos Leta, um dos fundadores, a ideia é ir atualizando-os constantemente, assim como se faz com os softwares. Além disso, a Fazenda Futuro pretende concorrer não necessariamente com os negócios veganos, mas com os tradicionais frigoríficos da indústria da carne.

Para além do setor gastronômico, podemos mencionar ainda a moda como outro mercado que tem sido enfático nas alternativas mais prudentes e inclusivas. Na Bump Box, por exemplo, kits de looks montados especialmente para grávidas são oferecidos por assinatura de aluguel. Isso porque, considerando que a gravidez é um estado temporário do corpo feminino, onde as mudanças estruturais que ocorrem possuem prazo de validade, a modelagem necessária nas roupas também acaba sendo temporária, fazendo com que sua utilidade sequer chegue ao período de um ano. Na mesma pegada, o Roupa para Brincar também surgiu pensada em um nicho: o público infantil. Dentro de um mercado que normalmente oferece roupas abarrotadas de renda, brilhos e "frufrus" que pinicam, a loja defende uma forma mais livre de se vestir para as crianças. Enxergar os pequenos com a mesma seriedade que os adultos, o que em outras palavras significa compreender suas reais necessidades, fez com que as fundadoras percebessem o grande potencial de uma simples peça como a legging, transformando-a num grande negócio. Com modelos que podem servir a meninos e meninas simultaneamente, a elasticidade e o conforto das leggings são ideais para a vida enérgica dos pequenos e podem moldar-se por muito mais tempo nos seus corpos.

Por último, mas não menos importante, vale mencionar que até a área da saúde tem trazido oportunidades entusiasmantes. Como continuidade de um Trabalho de Conclusão de Curso em engenharia biomédica, duas pesquisadoras brasileiras fundaram a Figment Face, uma empresa que produz próteses faciais com materiais biodegradáveis através de impressoras 3D. Ao paciente, basta fazer um exame radiológico e entregá-lo ao negócio, que dentro de 24h fabricará a prótese. Além da simplicidade e agilidade no processo, utilizar a impressão 3D com ácido poliático (um material que pode derivar de cana, milho ou mandioca) também barateia consideravelmente o custo de produção, tornando o produto final muito mais acessível para quem precisa. E a mais recente novidade é que a Figment Face agora estuda viabilizar atendimentos à distância — outra expansão de acessibilidade graças às praticidades da impressão 3D.

 

Imagem: Unsplash

Por mais simples que algumas soluções pareçam, é notável que todos esses negócios trazem em si grandes inovações. A diferença, ao contrário do que costuma-se pensar no senso comum, é que nem toda inovação trata de ideias mirabolantes sustentadas por parafernálias tecnológicas. Não que essas não sejam de grande valia — inclusive podemos notá-las como recursos de apoio em diversos dos exemplos mencionados acima. Mas a grande questão é que, num mundo de excessos materiais, muitas vezes a inovação é muito mais intangível. Seja através de informação, alimentação, vestuário ou acessibilidade, o fato é que todos esses serviços têm em comum uma mesma direção: valores para um mundo mais justo, consciente, diversificado e, claro, humano.

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Mauricio Reck
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Consultor de Inovação no Sebrae/PR & CEO na UNA Smart!

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