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[Entrevista] Singularidade de uma peça: tendências do mercado slow fashion

[Entrevista] Singularidade de uma peça: tendências do mercado slow fashion

Confira a entrevista exclusiva com Simone Andreta criadora da marca Maria Simone.

Para quem não conhece, o termo slow fashion surgiu como uma alternativa socioambiental mais sustentável no mundo da moda.

Além da moda sustentável prezar pela diversidade, ela promove consciência socioambiental e contribui para a confiança entre produtores e consumidores. A prática de preços é baseada nos custos sociais e ecológicos, mantendo sua produção em pequena e média escalas.

O objetivo desta entrevista é mostrar como uma marca pode manter a singularidade de uma peça verdadeiramente exclusiva a fim de preservar o trabalho artesanal.

1. Como surgiu a marca Maria Simone? Qual a inspiração para a criação de suas peças?

R: Eu tinha vontade de criar peças fora da padronização da moda, com toque pessoal, diferenciado. Essa vontade era antiga, de quando eu trabalhava em grandes confecções e era tolhida sempre que criava detalhes artesanais para os modelos das coleções. Eram inviáveis para produções em grande escala. O mercado era outro.

Comecei então, em um período de férias chuvosas no sítio da família. Minha mãe me ensinou a bordar, e com o que eu tinha na mala comecei a customizar minhas roupas quando nem existia ainda essa palavra  – customização – no sentido que tem hoje.

Surgiram as primeiras peças e com elas o nome Maria Simone, de uma brincadeira entre minha cunhada na época, também chamada Simone e eu. Dizíamos ser  Simone Maria e ela Maria Simone. 

Quando comecei a usar as peças, começaram os pedidos, virou um negócio paralelo até que em um episódio marcante da minha vida, vi que era a hora de iniciar meu próprio negócio. 

Quando fui demitida do meu último emprego de estilista, em uma entrevista  de uma marca famosa, depois de ter meus croquis elogiados pelo dono famoso, a entrevistadora do RH me pergunta: "Quais marcas de roupa você usa?”, “Quais restaurantes da moda você frequenta ? "

Eu, desempregada , preocupada em pagar minhas contas, me vi diante de uma situação constrangedora, me imaginando fazer parte de um mundinho fútil que não tinha nada a ver comigo. Percebi na hora que não era isso que eu queria para mim! Esse foi o start pra botar em prática o meu sonho.

2. Suas peças são únicas e customizadas. Além disso, tem muito valor agregado à marca. Um bom exemplo disto é a participação da melhor idade na produção das peças. De que forma essa parceria é realizada?

R: Comecei vendendo em lojinhas da Vila Madalena, depois abri meu primeiro atelier, até montar minha primeira loja.

Mas desde o início ficou claro que todas as peças seriam customizadas com bordado manual, mas a mão de obra do bordado seria feito só  por senhoras da terceira idade.  Pois como minha mãe foi minha primeira bordadeira , percebi o quanto aquilo a deixou feliz, sentindo-se útil com aquele trabalho. Contratei senhoras que bordavam em suas casas e puderam passar a gerar renda com seu hobby, no seu tempo, cada uma com o que gostava mais de fazer, melhorando sua autoestima . Em contrapartida, eu tinha uma qualidade de bordado inigualável e a energia positiva destas senhoras que tornaram-se grandes amigas.

3. Ainda falando em propósito de marca, sua empresa tem contribuído para um mundo melhor há anos. Ela unificou consumidoras e toda a cultura organizacional na conquista de um objetivo maior: a causa animal. Como você alia  sua produção ao apoio de ONGs de proteção animal?

R: A parceria com ONGs veio de todo meu amor aos animais desde sempre. Uma das primeiras peças que fiz foi inspirada em um gatinho.  Na mesma época, adotei minha primeira gata, a Morgana . Em idas ao veterinário comecei a entender a importância da castração, comecei a conhecer a triste realidade do abandono, maus trato e todo trabalho duro de ONGs de proteção animal. Eu tinha que ajudar de alguma forma. Depois que você conhece essa realidade, não tem como ignorar. Então resolvi unir meu trabalho temático ajudando ONGs, doando parte da renda de alguns modelos. 

Hoje já não tenho mais essas parcerias fixas como tinha. Mas continuo ajudando a proteção animal de várias outras formas.

4. O seu trabalho exige muita criatividade e dedicação – criação de roupas, bijuterias, acessórios e decoração. Você cria peças únicas de acordo com o pedido das clientes. No entanto, neste período de pandemia, você desenvolveu uma linha única de máscaras, visando a saúde e o bem-estar da sociedade. Como surgiu a ideia? Você tem alguma dica para quem está começando no mundo da moda?

R: As máscaras começaram por conta de uma viagem que eu tinha programada, já estava pensando em fazer máscaras para entrar no avião, quando ainda não estava sendo fechadas fronteiras, nada ainda estava definido. Fiz para a família toda, assim que postei nas redes sociais, começaram os pedidos.  Na semana seguinte, o Ministro da Saúde indicou as máscaras de tecido, e aí  não parei mais. Reconfigurei meu atelier para tecido plano, chamei minha antiga assistente que acampou em casa para não ter que ficar se expondo na rua,  aumentei a produção, aperfeiçoei modelagens, e é claro, incluí o bordado manual nas máscaras.  Eu já  estava com bordadeiras paradas, visto que a coleção nova estava ainda no começo quando começou a quarentena.  Poder agregar o trabalho de  bordado à mão foi muito bom e gratificante. 

Acho que o mundo da moda já estava em mudança nos últimos anos. O slow fashion, termo que surgiu a pouco tempo, mas que é o que faço desde o início, veio pra ficar  pois ele já era  resultado de uma nova consciência,  com novas marcas com propostas sustentáveis, inclusivas de novos criadores. Agora então, o consumo pós-pandemia nunca mais será o mesmo. Tudo precisará ser repensado.  A demanda será diferente, e é preciso estar atento a isso.

Estudar , aprender processos de produção, materiais alternativos e pesquisar nunca foi tão necessário para se adequar aos tempos que virão.  Espero que possamos passar por tudo isso para nos tornarmos mais maduros e fortes em relação à moda e ao mundo. Com uma nova cabeça, novo olhar aos materiais disponíveis, sem exploração do meio ambiente. Foi assim que comecei lá atrás, e também agora com as máscaras – com todos fornecedores em quarentena. Eu não tinha matéria-prima disponível nas duas ocasiões,  mas me reinventei.  Trabalhei com o que tinha até que novas alternativas foram surgindo. Acho que inventar moda é isso!

 

Francine Wagner 

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