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GESTÃO INTELIGENTE: QUEM SÃO OS NEGÓCIOS QUE ESTÃO SOBREVIVENDO ÀS NOVAS MUDANÇAS GLOBAIS?

GESTÃO INTELIGENTE: QUEM SÃO OS NEGÓCIOS QUE ESTÃO SOBREVIVENDO ÀS NOVAS MUDANÇAS GLOBAIS?

É inevitável mencionar mudanças em gestão de negócios quando falamos de novas tendências de mercado. No quarto e último artigo da nossa série, trazemos cases relacionados à macrotendência “Gestão Inteligente” do Guia de Tendências 2020-21 do Sebrae , que aborda as principais demandas e possibilidades nos atuais bastidores corporativos. Em um mundo onde as fronteiras da comunicação já quase não existem, e onde cada dia é totalmente novo em relação ao anterior, há cada vez menos espaço para os negócios que não souberem olhar ao seu redor. Analisar e decodificar o seu entorno, considerando os novos contextos e mentalidades, é uma das chaves para a sobrevivência das empresas.

Contudo, compreender o que tem se originado nas novas mentes consumidoras não é o bastante se não enxergamos também o que se passa dentro dos nossos próprios negócios — ou ainda, dentro de nós mesmos enquanto gestores. É necessário sabermos nos avaliar honesta e detalhadamente se quisermos encontrar estratégias precisas para melhorias efetivas. Em tempos inquietos, o desapego à autocrítica nunca foi tão essencial.

Dentre os exemplos atuais de condutas mais favoráveis à inovação, encontram-se aspectos como foco em processos e ganhos a longo prazo; uma oposição às urgências e imediatismos do mundo moderno que nas últimas décadas vem comprometendo a qualidade de entrega, desde atendimento e comunicação a desenvolvimento de produto e/ou serviço. Considerar espaços para testes e experimentações, junto a persistência e capacidade de resiliência, também tem se mostrado um diferencial determinante na hora de inovar. E a atenção aos menores detalhes é outro item que entra na lista; por mais invisível que possa parecer a olho nu, a consistência de marca — isto é, alinhamento entre discurso, experiência do consumidor, processos de produção e gestão — tem sido critério definitivo na avaliação do público.

A Social Chain, atualmente uma das principais companhias internacionais de marketing social/digital, iniciou suas atividades há apenas 5 anos, e certamente deve muito de seu notório crescimento a alguns dos aspectos mencionados acima. Algum tempo antes de fundarem a empresa, os jovens Steven Bartlett e Dominic McGregor depararam-se com uma fragilidade no mercado publicitário de sua cidade, Manchester, no Reino Unido. As empresas da região pareciam não estar conseguindo atingir o público jovem com a mesma eficiência que atingiam a públicos mais velhos; algo não ia bem, e ninguém parecia compreender exatamente o quê. Até que Steven e Dominic, millennials natos (isto é, nascidos em meados dos anos 90), perceberam que o mercado havia perdido o fio da meada e não estava mais dando conta de acompanhar as ligeiras transformações das gerações pós-80's. Juntando forças, e utilizando seus conhecimentos naturais enquanto "auto público-alvo", Steven e Dom fundaram a Social Chain. Em muito pouco tempo, viralizaram campanhas entre o público jovem, atraíram gigantes como clientes e, claro, ganharam a atenção da mídia.

Steven Bartlett e Dominic McGregor | Créditos: Social Chain (acervo)

Além da habilidade inerente para grandes resultados em questões de produto/serviço, o que faz a diferença na Social Chain é seu modelo de negócios e gestão. De acordo com Arthur Régis, designer gráfico brasileiro que trabalha na sede de Nova York, a Social Chain atua baseada em 3 lemas: "be first" (que se refere a estar sempre à frente), "be fearless" (não ter medo de tentar), e "be everchanging" (estar sempre disposto a mudar e se adaptar). Arthur conta como utilizar cada um desses 3 princípios é essencial para a condução da empresa, que vive de marketing, publicidade e mídias sociais.

Tudo começa já na própria contratação dos colaboradores: "Temos um ditado que é: 'contratamos com base na cultura'. Quer dizer, na área do design, por exemplo, é claro que currículo e portfólio são muito importantes. Mas perceber que o candidato tem capacidade de compreender e se adaptar à nossa cultura é o que vai realmente fazer a diferença para nós". E por ‘cultura da Social Chain’, Arthur quer dizer paixão e autonomia o suficiente para lidar com um ambiente de trabalho que, em geral não possui regras — embora tenha um ou outro costume. Os espaços de trabalho não se limitam a mesas pessoais, os horários de entrada e saída são indefinidos, e cada uma das filiais da empresa conta ainda com uma equipe especializada em manter os colaboradores felizes (nomeada, literalmente, "Happiness" - 'Felicidade' em português). O trabalho remoto, de casa ou de qualquer lugar do mundo, também é uma opção para os colaboradores. "Não queremos ninguém trabalhando com a gente apenas por obrigação ou necessidade. E é curioso ver como as pessoas fazem um trabalho muito mais empenhado quando se tira as regras", constata.

https://pbs.twimg.com/media/CceUj3GW8AECvX9.jpgEscritório da Social Chain (Manchester, UK) | Créditos: Andrew Lambert

Mas por ‘cultura’, Arthur também se refere a habilidades compatíveis com os 3 lemas da empresa: "O que nós tentamos fazer é estar sempre acompanhando as notícias e acontecimentos — no entretenimento, na indústria, na política e no mundo em geral — para estarmos sempre um passo à frente. Por exemplo, se hoje o Instagram lança um novo recurso, hoje mesmo realizamos uma reunião de emergência e amanhã já começamos a apresentar o novo case para os clientes". Consequentemente também, a grande maioria dos colaboradores acaba por estar na faixa dos 21 anos, sendo todos grandes entendedores das mídias sociais e, claro, do público do qual fazem parte. Segundo Arthur, ao contrário do que se pensa, a geração dessa faixa etária gosta muito de trabalhar (e trabalha muito)... mas à sua maneira.

https://pbs.twimg.com/media/CceUh5WWEAEyRkV.jpgEscritório da Social Chain (Manchester, UK) | Créditos: Andrew Lambert

E o último ponto essencial é a disposição, ou mesmo atração, pelo inexplorado. Não temer o absurdo é o ingrediente final nas receitas das campanhas mais foras da curva da Social Chain. Por mais clichê que possa soar, a máxima do "nenhuma ideia é ruim" é fato na companhia: "Geralmente nossas ideias mais loucas não são aprovadas, mas os clientes percebem que não estamos entregando só o que foi pedido e que estamos constantemente experimentando coisas diferentes para inovar. Sair do convencional é um grande desafio em um mercado que muda tão rápido, mas é a nossa grande diferença. É um tentar constante e sem fim", conclui o designer.

 

Engana-se, porém, quem acha que a Social Chain se limita a focar apenas em posts em redes sociais e campanhas de marketing. O fundador Steven Bartlett, por exemplo, trabalhou durante este ano no desenvolvimento de uma ferramenta chamada Like-Wise, que utiliza tecnologia AI para identificar perfis bots (ou "fantasmas") das redes sociais. O objetivo é colaborar para que as redes sociais reconquistem a confiança do público, já que recentemente despontaram diversos escândalos sobre vazamento de dados e veracidade de informações, impactando inclusive em situações mais críticas como eleições presidenciais. Segundo Bartlett, as mídias sociais precisam urgentemente trabalhar para melhorar sua reputação se não quiserem perder relevância para o público nos próximos anos. E não que o jovem CEO esteja surpreso ou amedrontado — em entrevista à BBC, ainda em 2016, Steven já havia declarado: "na mídia social, a única coisa que você pode realmente prever é que vai haver mudanças. E porque estamos acostumados às mudanças e as abraçamos com tanta força, não tenho a preocupação de que elas possam nos extinguir", afirmou.

O domínio da arte de gerir ambientes agradáveis e mais livres, que estimulam o envolvimento dos colaboradores, também é uma especialidade da Apple Developer Academy. Os laboratórios de pesquisa e tecnologia da gigante Apple estão presentes em diversos países, e a cidade de Curitiba é uma das contempladas no território brasileiro. Diferente do comum, porém, a maior parte dos colaboradores (de todo o mundo) são bolsistas aprendizes. Isso porque, na verdade, os laboratórios surgiram para oferecer um programa educativo (de duração de 2 anos) para estudantes das mais diversas áreas, com o propósito de fomentar a mão de obra qualificada para a área regional de programação e desenvolvimento de aplicativos. Embora a Apple Developer Academy não ofereça vínculos empregatícios no programa, a maior parte dos estudantes o termina com empregos já encaminhados (normalmente em startups ou outras empresas da área de tecnologia que precisam de profissionais capacitados).

https://pbs.twimg.com/media/DrqR6Q_WsAEF005.jpgApple Developer Academy PUCPR (2018) | Créditos: Acervo Apple Developer Academy PUCPR (via twitter)

 

Mateus J. J. Paulo Filho, estudante da UTFPR aprovado no projeto, explica um pouco mais detalhadamente sobre como é integrar a equipe: "a gente não tem exatamente aulas, é mais como se tivéssemos grupos de estudos focados em aprender sobre os temas que mais temos interesse. Mas na verdade passamos a maior parte do tempo colocando a mão na massa mesmo". Segundo ele, isso ocorre em razão da premissa de um processo chamado CBL (Challenge Based Learning, ou 'Aprendizagem por desafio' em português), uma metodologia criada pela Apple para impulsionar pessoas a solucionarem problemas do mundo real e a desenvolverem novos saberes a partir de ações colaborativas.

Entre as características que favorecem para que o ambiente seja mais leve e, ao mesmo tempo, mais autônomo que o convencional, está uma conduta educacional não-hierárquica, onde aprendizes e mentores trabalham juntos para resolver os desafios. "Nossos mentores geralmente são pessoas que já fizeram a Apple Developer Academy, e costumamos ter uma relação mais horizontal. Por exemplo, aqui de vez em quando saímos com o meu coordenador do curso, jogamos board games juntos etc., e por causa de uma dessas interações, criamos o "Playday" e o implementamos na grade educativa. O Playday é um dia em que nós viemos ao laboratório só para jogar, depois que terminamos todos os projetos main challenge ou mini challenge. Além disso, quando os concluímos também temos liberdade para desenvolver projetos pessoais. Eu mesmo fiquei ontem 'codando' um projeto pessoal que eu tinha. E também passei no grupo de estudos de design, porque lá tem pessoas que querem aprender mais sobre design assim como eu, sabe?", conta Mateus.

https://pbs.twimg.com/media/DylbLCpWsAALNt9.jpgPrimeiro dia de bolsistas na Apple Developer Academy PUCPR (2018) | Créditos: Acervo Apple Developer Academy PUCPR (via twitter)

Fazer com que o espaço seja ocupado por pessoas com distintas bagagens culturais também é uma questão fortemente considerada pela academia de desenvolvedores. Matheus relata que palestras a respeito do tema são frequentes, e que a própria instituição já apresentou papers defendendo as vantagens e benefícios de um ambiente com perfis de colaboradores diversificados. A lógica é que, quanto mais diversidade de pessoas em questões de área de formação, etnias e vivências em geral um local de trabalho possui, mais rico ele se torna enquanto potencial para resoluções de desafios. O estudante da UTFPR exemplifica: "da mesma forma que atualmente já não se consegue mais vender cerveja utilizando mulheres 'nuas' nas propagandas como antes, a Apple entende que não adianta especializar pessoas para desenvolverem aplicativos se todas elas pertencem a um único público ou uma única realidade. Perde-se muito potencial de alcance, entende?", esclarece.

Deve-se ressaltar, porém, que negócios educadores ou de estruturas não-lineares não são exclusividade dos grandalhões da indústria. Em escalas bem menores, o Lina, um espaço colaborativo voltado para a gastronomia e a cena artística da cidade de Curitiba, dá um show de exemplo no assunto. O negócio se ramifica em três frentes, sendo elas um bistrô, uma loja, e "a prosa". No bistrô, são oferecidos pratos profissionais, feitos por chefs convidados para trabalhar no local temporariamente; o que significa que o restaurante — e o cardápio — são rotativos. Já a loja é um espaço para revender, segundo a empresa, "produtos de pessoas que desenvolvem coisas legais na região". E a prosa, por fim, reserva um espaço para workshops, palestras e afins, com temas voltados para gastronomia, alimentação e demais assuntos.

Em pegada semelhante, sobretudo a respeito de visualizar a potencialidade da educação coletiva, a Oficina de Fine Arts — que já foi mencionada no artigo anterior “Quando as experiências de consumo exigem mais que apenas experiências — é uma marcenaria independente que abre cursos e eventos para a vizinhança. Seu exemplo vale ser retomado pois ilustra muito bem como os pequenos negócios podem expandir seus recursos através da difusão de conhecimentos. Essa tendência inclusive possui benefícios "2 em 1", afinal, além de gerar receita extra, reforça o nome da marca para a comunidade e estreita as relações com o público. As ideias inteligentes da Oficina de Fine Arts, no entanto, vão além disso — relembramos, conforme também pontuado no artigo anterior, que a marcenaria encontra a maior parte da sua matéria-prima nas ruas, reaproveitando objetos e materiais até então vistos como "inúteis". Desse modo, os custos de produção são reduzidos e impactam, inclusive, no preço final para o consumidor, que acaba pagando praticamente apenas pela mão de obra. E Nathan, dono da marcenaria, já está se preparando para o futuro das novas políticas públicas ambientais (como a logística reversa por exemplo): recentemente a marcenaria implementou um plano para que todos dos materiais adquiridos sejam de reaproveitamento.

A alguns quarteirões da Oficina de Fine Arts, o negócio vizinho Ateliê usina também é um espaço colaborativo que fomenta a cena artística local, hospedando diferentes artistas e microempreendedores da cidade. Entre eles, estão tatuadores, designers, e marcas independentes de roupas e acessórios. Junto a uma estilosa decoração, interna e externa, o espaço evidencia seu caráter alternativo com produtos (e tatuagens) autorais bastante singulares, movimentando um público jovem e descolado bastante fiel. Ocasionalmente, o ateliê recebe tatuadores de outras regiões do país, cedendo-lhes espaço temporariamente, e ainda promove eventos para reunir demais pequenos negócios alternativos de Curitiba, o que fortalece seu nicho. A quem frequenta o local, não há dúvidas: aos poucos, o Usina Ateliê está realmente se consolidando como ponto de referência cool da cidade.

Evento Mina Flash Day - Usina Ateliê (2019) | Créditos: Acervo Usina Ateliê (via instagram)

De "point cool", a propósito, o Edifício Carmen entende muito bem. Sendo uma antiga construção da década de 50, o charmoso e pequenino prédio do Batel certamente passaria despercebido aos transeuntes da região não fosse a vida que seu conjunto de negócios traz ao local. De modo não exatamente planejado, parece que tudo começou por volta de 2014 com a ida das lojas Album Hits (de roupas) e Vinil Velho (de vinis) ao edifício. Meses mais tarde, a agência de design Pedro Pastel & Besouro também foi atraída para o lugar, e começou aí a se perceber a incidência de um público jovem criativo de um mesmo nicho. Tempos depois, o Botanique Café chegou para solidificar de vez a identidade do Edifício Carmen: a partir daí, em 2016, os negócios decidiram juntos estilizar a fachada do edifício com uma pintura que retratasse a atmosfera que se criou nos espaços, unificando as lojas como "um só lugar". Atualmente, funcionam no Edifício Carmen os negócios Botanique Café, Alquimia, PELE, Coletivo Corselet e Cabelo Ateliê, mantendo a mesma identidade e público do local. Embora sempre tenham sido administrados separadamente, a questão é que os negócios instalados no edifício compreenderam que suas semelhanças tornaram-se um grande potencial a partir do momento em que decidiram unir forças e transformar o ambiente em um único e grande point para o seu nicho. Afinal, para os consumidores, nada mais conveniente que estar em um lugar em que todos os comércios, juntos, atendem ao seu estilo de vida. É chegada a era das fraternidades comerciais, e o público agradece.

Sejam as melhorias de gestão pautadas em processos de ganho a longo prazo, atenção à consistência e aos mínimos detalhes, testar sempre e não temer o novo, ou simplesmente acompanhar e alinhar-se às novas mentalidades surgentes, o fato é que o mundo está em constante mudança e nada, nunca, será capaz de pará-lo. Resistir às novas demandas, negligenciá-las, ou até mesmo tentar combatê-las, é perder tempo e energia valiosos demais para serem gastos em qualquer assunto que não se refira a encontrar a estratégia mais adequada ou favorável para a sobrevivência do seu negócio. Embora haja controvérsias sobre a autoria da suposta frase de Charles Darwin, sua assertividade é inegável:

“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”. Resiliência, aqui, é a palavra-chave.

 

 

 

 

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Mauricio Reck
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Consultor de Inovação no Sebrae/PR & CEO na UNA Smart!

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