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O MUNDO REAL, VIRTUAL E DOS NEGÓCIOS: UMA SÓ CONEXÃO

O MUNDO REAL, VIRTUAL E DOS NEGÓCIOS: UMA SÓ CONEXÃO

Desde a chegada da internet às nossas casas, e especialmente agora que a carregamos em nossos bolsos para todos os lados, o mundo virou do avesso e a comunicação passou a ser tratada como necessidade básica. O acesso à internet nos dias atuais é praticamente ilimitado, e para os cidadãos dos grandes centros, é assustador imaginar uma vida sem ela.

No artigo anterior, "É hora de repensar (e renegociar) a humanização", vimos que para inovar nem sempre é necessário ancorar-se em recursos tecnológicos. No entanto, é inegável que a tecnologia é mesmo o maior fator de desenvolvimento da inovação. Outro ponto importante é que, apesar dos diversos problemas gerados pelo excessivo uso da tecnologia, gadgets e recursos tecnológicos sempre terão papel fundamental na influência da sociedade. Encontrar o balanço saudável entre uso e dependência será sempre um desafio, inclusive para as tomadas de decisão em negócios. Por isso, este artigo destaca algumas das inúmeras oportunidades que nosso planeta hiperconectado pode trazer.

Com os avanços de portabilidade, processamento de dados e recursos multimídia, a sociedade tem desfrutado cada vez mais das facilidades fornecidas pelas tecnologias de conectividade e, consequentemente, se tornado cada vez mais dependente delas. Os acontecimentos no mundo virtual interferem diretamente nos do mundo real e vice-versa, de modo que ambas realidades já quase não se distinguem mais – e a tendência é que tudo se torne ainda mais interdependente. O fim dessas fronteiras está decretado e isso reflete diretamente sobre a expectativa dos clientes. É necessário adaptar o modelo de negócios a essa realidade.

A Hi Technologies é uma empresa que tem demonstrado dominar muito bem essa integração, fazendo uso de recursos tecnológicos avançados para aprimorar experiências na área de saúde. A empresa curitibana iniciou como um projeto estudantil na incubadora da PUCPR, em 2003, e recentemente subiu ao patamar de Empreendedora Endeavor. Entre seus principais produtos e serviços está o HiLab, um dispositivo portátil que viabiliza a realização de exames de sangue em farmácias, clínicas e hospitais, sem a necessidade de ir a um laboratório físico tradicional. Ele é capaz de identificar, em poucos minutos, resultados de exames imunológicos, hormonais, bioquímicos e até mesmo marcadores tumorais. Como ele funciona? O sangue coletado (de uma a três gotas, apenas) entra em contato com reagentes químicos já contidos no dispositivo, que fazem a análise do material e enviam os dados automaticamente (via internet) para o laboratório central da empresa. De lá, uma equipe de biomédicos examina as informações e rapidamente disponibiliza o resultado final para o paciente, também via online. Desse modo, no mesmo dia, o paciente já pode apresentar as informações ao médico, agilizando muito o processo de diagnóstico.

Créditos: Hi Technologies - Acervo

Mas tudo isso só é possível porque a Hi Technologies utiliza em seus serviços recursos como Internet das Coisas, Machine Learning e Inteligência Artificial, três dos principais artifícios tecnológicos que estão reinventando a indústria (com o que tem se nomeado, atualmente, de indústria 4.0). Marcus Figueiredo, CEO da empresa, acredita já estarmos vivenciando o que seria o início de uma nova revolução: "Quando falamos em Internet das Coisas, falamos em conectar o carro, a lâmpada, o equipamento médico, tudo entre si. Isso permite um novo universo de possibilidades, desde desligar a luz da sua casa via online até ser avisado quando ela está sendo roubada. E essas questões naturalmente caminham para a revolução da Inteligência Artificial, uma vez que a internet já está chegando em quase todos os lugares, o que permite que construamos um sistema que se conecte em tudo". Para ele, a Inteligência Artificial expandirá a capacidade humana assim como internet expandiu as possibilidades de comunicação.

Há, contudo, quem ainda se assuste ou não compreenda essas questões. Marcus conta que assim como a Uber encontrou resistência com os táxis ou o Airbnb com os hotéis, a Hi Technologies, vez ou outra, também tem sofrido a desaprovação dos laboratórios convencionais – ainda que a empresa não vise concorrer diretamente com esse mercado. Marcus argumenta que o maior benefício do HiLab é levar acessibilidade a pessoas que moram afastadas de centros urbanos, em locais que não possuem laboratórios ou médicos especializados. "Quando você tem um país continental com uma população distribuída de forma tão assimétrica, é difícil distribuir os médicos. Profissionais generalistas são mais viáveis, mas o acesso a especialistas torna-se complexo: como custeá-los em cidades com poucas pessoas?", indaga o CEO, que crê positivamente na chamada Telemedicina. "É claro que a Telemedicina não tem a mesma qualidade de um atendimento presencial, mas já é uma melhor alternativa do que a ausência, quando não há a opção presencial. Não podemos penalizar o paciente por não morar em uma capital, excluindo-o do processo ou fazendo-o sempre arcar com tempo e custos de transporte cada vez que precisa de atendimento", completa.

 

Créditos: Hi Technologies - Acervo

Outros públicos que a Hi Technologies percebeu que podem ter dificuldades para acesso aos exames são os idosos, gestantes, deficientes, e pessoas com limitações para locomoção. Por isso, a empresa agora está desenvolvendo o aplicativo chamado HiLab Para Você. Comparado como "o iFood dos exames", a proposta é que o usuário possa marcar horário para um profissional de saúde ir até a sua casa realizar o exame. O serviço começou a funcionar em julho em Curitiba, mas a meta é expandi-lo para várias cidades do país assim que o período de testes for concluído.

Conterrânea da Hi Technologies, a Panic Lobster também tem focado no uso de tecnologias para o desenvolvimento humano. Através da realidade virtual, a startup oferece treinamentos de oratória e desenvoltura em apresentações. Ao notar que as demandas para o trabalhador do futuro serão focadas em "soft skills" — competências como comunicação, criatividade, inteligência emocional e relações interpessoais — os sócio-fundadores da Panic Lobster compreenderam a temível necessidade de falar em público como uma grande oportunidade de negócio. "É cada vez mais perceptível esse medo nas pessoas. Mas muitas vezes essa é uma dificuldade gerada por falta de oportunidade. Com a Panic Lobster, a pessoa pode então praticar de qualquer lugar e a qualquer momento" conta Tiago Gavassi, fundador e CEO do negócio. Isso porque a empresa possui uma plataforma onde é possível se cadastrar como usuário e, já logo em seguida, dar início aos treinamentos. Na opção mais tecnológica, o usuário utiliza óculos de realidade virtual para se “transportar” a um ambiente com plateia, e essa, por sua vez, está gravada como um público de verdade, onde nem todos os espectadores prestam atenção e ainda fazem caras e bocas. Exposto a essa simulação realística, é possível que o participante insira virtualmente o próprio pitch deck, roteiro dos slides, acompanhe a contagem de tempo e, claro, grave a apresentação. Após isso, o usuário pode enviar a gravação para que um mentor especializado dê feedback.

Interface no óculos de Realidade Virtual da Panic Lobster | Créditos: Panic Lobster - Acervo

De acordo com Tiago, quando a Panic Lobster implementou o treinamento no mercado, logo percebeu que muitas pessoas ainda não estavam familiarizadas com a tecnologia de realidade virtual. Por isso, a plataforma passou a oferecer também a opção "Gravador de Apresentação", uma versão mais simplificada do treinamento. Embora a experiência imersiva se perca, já que os óculos de realidade virtual não são utilizados, ainda é possível praticar as apresentações e receber feedback.

Créditos: Panic Lobster - Acervo

Desde a sua estreia no mercado, em 2017, a startup já atende empresas como SEBRAE e Banco do Brasil, e agora também está iniciando parcerias com universidades. "Estamos com um projeto junto à Universidade Positivo: vamos participar da primeira Hackaton de Carreiras no Brasil, onde empresas como O Boticário e Renault estarão oferecendo empregos. Nosso papel será auxiliar no processo seletivo de participantes, através da utilização do gravador de apresentações. Ao todo, serão selecionadas 500 pessoas" declara Tiago.

Frequentemente confundida com a Realidade Virtual, há também a tecnologia da Realidade Aumentada, que ao invés de imergir o usuário em cenários virtuais, faz o caminho inverso inserindo objetos virtuais em cenários reais. Uma empresa que soube muito bem utilizar as possibilidades desse recurso foi a Mizuno, que recentemente marcou o lançamento da sua coleção '1906' mesclando Realidade Aumentada e Fotogrametria, permitindo uma reprodução de detalhes dos objetos com muito mais definição, profundidade e realismo. Para visualizar as informações extras sobre cada produto exposto, bastava ao usuário baixar o aplicativo desenvolvido especialmente para a ocasião, e apontá-lo para o objeto em questão.

Mas nem só de experiências em tempo real vive a Realidade Virtual ou Aumentada. Em outros âmbitos, tem sido cada vez mais frequente o surgimento de influencers cibernéticos. Isso mesmo: bonecos (avatares) virtuais 3D estão se transformando em personalidades influenciadoras, publicando fotos e vídeos em suas redes sociais e interagindo diretamente com o público. É o caso da 'Lu do Magalu' (como se intitula em seus perfis), a personagem virtual do Magazine Luiza. De mascote à garota propaganda, Lu foi criada em 2003 para representar os valores da empresa, e com os recentes avanços tecnológicos, teve uma grande evolução de personalidade e visibilidade nos últimos anos — seu canal no Youtube tem atualmente mais de 1 milhão e 600 mil inscritos. No Instagram da franquia, Lu também aparece frequentemente fazendo selfies e posando com famosos. E não é necessário muito para se certificar do sucesso da Lu: basta olhar a quantidade de comentários e interações que ela recebe cada vez que dá as caras nas redes sociais da empresa.

   Lu da Magalu | Magazine Luiza (via Instagram); @magazineluiza

Além de avatares virtuais, que assemelham-se às formas 'carne e osso', existem as Inteligências Artificiais que também interagem diretamente com o usuário, mas que não possuem rosto ou imagem, necessariamente. A Alexa, criada pela Amazon, por exemplo, é um famoso assistente de voz que tem a capacidade de responder aos comandos de fala dos usuários. É possível utilizá-la através dos aparelhos Amazon Echo ou Echo Dot alto-falantes sem fio que possuem acesso Wi-Fi (característica que os torna objetos inteligentes englobados na categoria de Internet das Coisas). Mas como empresa inovadora e destemida, a Amazon não pára por aí: agora, uma das maiores multinacionais de comércio eletrônico no mundo deu início a entregas de encomendas via drones (pequenas aeronaves não tripuladas e controladas remotamente).

Mencionar mobilidade, aliás, é outro ponto de alta relevância quando discutimos evoluções tecnológicas recentes. Das diversas soluções inteligentes que estão surgindo para, finalmente, melhorar as condições de trânsito urbano e de viagens, muitas estão focadas em ideias simples, como o compartilhamento coletivo. Conhecida como a "Uber Juntos do ônibus", a Buser, por exemplo, é uma startup que desenvolveu uma alternativa bastante interessante aos viajantes de ônibus: através de um aplicativo, pessoas interessadas em um mesmo destino são conectadas a empresas de fretamento executivo. Com isso, os usuários não ficam limitados às poucas opções das empresas de ônibus convencionais, e na maioria das vezes, ainda conseguem baratear significativamente os custos de passagem.

Falando em soluções simples que afetam positivamente o bolso e as possibilidades de serviços, a Nutre Bem é uma empresa de cartões pré-pagos para cantinas escolares que tem chamado a atenção por oferecer serviço inovador. Num aplicativo desenvolvido pela própria empresa, é possível que os pais dos alunos acompanhem os cardápios (avaliados nutricionalmente) das cantinas das escolas em que seus filhos estão matriculados, insiram créditos (saldo) em uma conta própria, e ainda possam restringir produtos, se desejarem. Entre as maiores vantagens, estão a segurança alimentar de seus filhos, segurança financeira, menos filas para os alunos, rapidez de atendimento e redução de problemas gerados pela utilização de dinheiro vivo ou cartões pessoais.

Créditos: Clay Banks (Unsplash)

Seja em ambiente escolar, urbano, virtual, empresarial ou mesmo de saúde, em todos as histórias trazidas acima é evidente que a tecnologia pode ser mais que mero privilégio para a sociedade — pode ser essencial. Por isso, é de muita importância refletir sobre a aplicabilidade de cada exemplo ao seu negócio: seja para influenciar a entrega de serviço, o produto, ou mesmo o modelo de negócios, aprimorar esses quesitos em consonância com o contexto tecnológico atual pode fazer toda a diferença. Afinal, como notamos neste artigo, o real e o virtual já não coexistem mais separadamente; as interferências ocorrem em todo lugar e a todo instante. A qualquer hora, fatores externos gerados por essa relação podem impactar direta ou indiretamente o seu negócio, tornando-se uma ameaça “inesperada” ou, muito melhor, a oportunidade perfeita para ele.

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Mauricio Reck
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Consultor de Inovação no Sebrae/PR & CEO na UNA Smart!

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