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QUANDO AS EXPERIÊNCIAS DE CONSUMO EXIGEM MAIS QUE APENAS EXPERIÊNCIAS

QUANDO AS EXPERIÊNCIAS DE CONSUMO EXIGEM MAIS QUE APENAS EXPERIÊNCIAS

Experienciar — sinônimo de conhecer, explorar, provar, apreciar. Sentir, vivenciar. Contemplar. São tantas as possibilidades e, quase que em unânime consonância, todas servem para descrever esta mentalidade coletiva que há tanto é parte do sentido de vida humano. Independente dos destinos finais, sabemos que viver trata-se de desfrutar dos caminhos. E é por isso que, dentre tantas tendências de mercado, essa é uma que dificilmente “cairá em desuso”, e nunca poderá ser considerada modismo. 

Neste artigo, onde apresentamos a terceira macrotendência "Vivenciando Experiências" do Guia de Tendências 2020-21 do Sebrae, trazemos alguns cases que exemplificam muito bem os anseios experienciais mais populares atualmente. Desde momentos calmos e "analógicos" (vulgos "offline") a propostas imersivas fornecidas graças às tecnologias de última geração, percebemos aqui que as alternativas experienciais não possuem delimitações materiais. Conceitos a princípio tão opostos (como retiro e conectividade; natureza e artificialidade; repouso e agito; etc) podem se tornar semelhantes se possuírem em comum uma mesma finalidade: propósito.

O Mamãe Urso Café, localizado na cidade de Curitiba, é um negócio que nasceu com essa essência. Utilizando seu espaço para proporcionar momentos de descanso, lazer e diversão entre crianças e famílias, o café integra seus visitantes através de salas temáticas, ambientes adaptados, área externa (ou seja, ao ar livre) e apresenta ainda um delicioso cardápio. O café pertence a Simone Galbier, mãe da Helena, que no seu período de licença-maternidade percebeu que talvez não quisesse ficar longe de sua filha quando precisasse voltar a trabalhar. Certo dia, em meio à correria cotidiana, Simone estava com Helena (ainda de colo) e precisou trocar suas fraldas em uma panificadora. Sem um espaço adequado para tal, Simone teve que se virar com um balcão sujo nos fundos do estabelecimento, e percebeu aí a carência de lugares preparados para receber mães e pais com bebês. Foi então que Simone decidiu: abriria seu próprio negócio voltado para esse público, onde ainda poderia passar mais tempo com a sua filha.

 

Canecas personalizadas - Mamãe Urso Café | Créditos: Labuta Studio

Segundo a proprietária, sua intenção era criar um espaço totalmente estruturado para famílias com bebês e crianças, onde todos pudessem se sentir à vontade e relaxar juntos. O conceito, segundo ela, é inverso aos típicos “espaço kids” que separam as crianças dos pais em um canto isolado por uma cerca — no Mamãe Urso Café, o espaço para as crianças é em todos os cantos. "Nossos clientes nos procuram pelo aconchego, conforto e tranquilidade. Criamos o café para que mamães e papais possam ter um tempo de conversa, seja com amigos ou entre eles mesmos, e para que possam tomar um café com seus filhos tranquilos, brincando pertinho", conta Simone. Como mãe, ela compreende a fundo os apuros e necessidades que pais de crianças pequenas passam, e por isso, faz questão de supri-las o máximo possível: "O 'sair' de casa geralmente é muito estressante para os pais. Queremos que o café traga a tranquilidade no sentido de: 'estou em casa! Aqui não sou um bicho estranho com um filho'" afirma.

A equipe de colaboradores também é escolhida considerando a familiarização com a realidade do público. Para Simone, é muito importante dar prioridade a pessoas que gostem de trabalhar para crianças e famílias, e que acreditem na proposta do negócio. A fim de incentivar uma boa relação entre a equipe e o trabalho, os colaboradores possuem liberdade de levar seus filhos durante o expediente sempre que precisarem. "Isso os motiva ainda mais a trabalhar felizes e, consequentemente, fazer um bom trabalho. Eles vivem o cliente!" declara a proprietária.

Salão Principal - Mamãe Urso Café | Créditos: Labuta Studio

Com a ajuda do marido que, segundo Simone, a apoiou firmemente desde o início do projeto, a mãe e empresária administra o negócio há quase dois anos. O local, que é literalmente uma casa com quintal, revitalizada e adaptada, oferece um salão principal e 4 salas temáticas, que são espaços ambientados para que as crianças possam brincar sozinhas ou acompanhadas de seus responsáveis. A Sala do Painel, por exemplo, possui um enorme painel colorido, cheio de botões e pequenas portinhas que escondem figuras de animais, e foi projetada para ajudar na memorização das crianças e reconhecimento de formas e cores. Já a Sala da Bolinha possui uma piscina de bolinhas, tatame, quadro de letras e uma estante de livros. A Sala da Graminha e a Sala da Barraquinha ambientam cenários lúdicos, tendo até grama sintética. E na área externa, além de grama de verdade, há pés de café, pés de maracujá, parquinho e quadro de giz. Dentro da casa, existe também um amplo e aconchegante fraldário, que não é só bem equipado, possuindo inclusive uma poltrona, como ainda fornece fraldas gratuitamente. Ufa! Eis um espaço recheado de opções de brincadeiras e descanso para todos os gostos.

Sala da Barraquinha - Mamãe Urso Café | Créditos: Labuta Studio

Falando em crianças e famílias, a Lanche&Co é outra empresa que contempla a integração desses públicos, gerando experiência, e tendo a refeição como ponto-chave. No entanto, sua atuação ocorre de modo um pouco diferente: ao invés de possuir um único estabelecimento, fixo, a Lanche&Co é uma rede especializada de cantinas que oferece uma alternativa mais inteligente e flexível às escolas. Partindo da adequação de estruturas já existentes nos colégios, ou transformando os espaços do zero, a empresa produz seus alimentos diariamente no próprio local, e abrange um cardápio mais saudável que o comum. Entre as opções, todas que contam com leite e açúcar, por exemplo, levam leite 100% integral e açúcar apenas orgânico. A empresa afirma também que a quantidade de sal nos alimentos é bastante reduzida, e que substitui ingredientes por outros mais saudáveis, como é o caso do bolo formigueiro que possui linhaça no lugar do chocolate granulado.

Além disso, toda escola que contrata a Lanche&Co ganha um treinamento inicial para funcionários e professores, de modo que sejam capacitados e estimulados a ensinar em sala de aula sobre os aspectos e benefícios da alimentação natural. Os pais também podem fazer oficinas de culinária, oferecidas pela própria empresa, para aprenderem a reproduzir as receitas em casa. E outra curiosidade sobre a rede é a parceria com a Nutre-Bem, a empresa de cartões pré-pagos para cantinas escolares mencionada no artigo anterior , viabilizando ainda mais o envolvimento dos pais com a alimentação escolar dos filhos.

Aparentemente as crianças estão mesmo ganhando novas oportunidades com as novas tendências de mercado. Mais um negócio gerado para atender a esse público é o Curió, que realiza visitas guiadas a museus e ambientes culturais com turmas escolares. Nascida oficialmente há apenas um ano (2018), no seu curto período de existência a empresa já levou aproximadamente 600 alunos a eventos como exposições, parques e Bienais pela cidade de São Paulo. Adaptando a linguagem das explicações à faixa etária dos alunos, que costuma variar entre 4 e 16 anos, as sócias da Curió transformam passeios culturais em momentos leves e descontraídos sem deixar de lado o desenvolvimento intelectual. Isto é, o foco na experiência das crianças resulta em uma atmosfera divertida, de modo a tornar o contato com o conteúdo bruto mais sutil e, consequentemente, um aprendizado mais marcante na memória dos pequenos.

Diferente, mas nem tanto, a Sarvodaya também oferece passeios experienciais com foco em aprendizado recreativo. No entanto, quem se beneficia aqui não são as crianças, mas os próprios adultos. Com o intuito de desenvolver questões inter e intrapessoais para o bem-estar, e usando como base principal ensinamentos de Mahatma Ghandi, o negócio propõe levar grupos de pessoas a comunidades rurais na Ásia. Nas viagens, os participantes costumam hospedar-se em locais que trabalham com agrobiodiversidade, a fim de que possam ser escalados para realizar atividades como limpar, arrumar, plantar e cozinhar. Junto a isso, também faz parte da programação atividades como yoga, meditação e diversas outras voltadas para a conexão espiritual. O objetivo é que através desse retiro urbano seja possível resgatar um senso de comunidade mais empático e aprimorar noções de cuidado com o próximo e consigo mesmo.

Participantes em viagem do Sarvodaya | Créditos: Sarvodaya (acervo – página do Facebook)

Saindo do território tupiniquim e cruzando fronteiras europeias, na Alemanha um grupo de pesquisa criou uma experiência que, apesar de um tanto "irreal", talvez consiga ser ainda mais impactante que as mencionadas anteriormente. Através da tecnologia de Realidade Aumentada, o SPECS reconstruiu um cenário do passado que lamentavelmente foi mais real do que gostaríamos: um campo de concentração da Segunda Guerra Mundial. Aos visitantes, basta utilizar o tablet entregue pela equipe organizadora, que mostra na tela onde se encontrava originalmente cada elemento sobre a área — um terreno onde de fato houve um campo, mas que teve seus vestígios destruídos no pós-guerra. Embora a experiência no Bergen-Belsen Memorial retrate um dos episódios mais sombrios da Alemanha e da humanidade, o SPECS a criou para fins de estudos históricos e, claro, de conscientização da população sobre os perigos velados da intolerância. Sem dúvidas, imergir em um ambiente tão tenso, fragmento de uma história tão delicada, deve tocar a sensibilidade e marcar os visitantes para sempre.

Em contextos mais descontraídos, mas ainda na Europa, o MOIC (Museum of Ice Cream, ou Museu do Sorvete) também soube inovar no assunto 'experiência de visitação em Museus'. Explorando recursos multissensoriais, o local proporciona uma imersão em ambientes abundantemente coloridos, oferecendo ainda a possibilidade de saborear diversos tipos de sorvete e guloseimas durante o trajeto. Ademais, diversos espaços foram construídos especialmente para que os visitantes fotografem e compartilhem nas redes sociais, carregando, portanto, aspectos decorativos ou espaciais bastante atrativos. Sendo um local tão pitoresco e animado, o MOIC quebra as expectativas das — algumas vezes —  "entediantes" visitações aos museus mais tradicionais, e proporciona aos visitantes um momento brevemente escapista capaz de entusiasmar o público e conectá-lo entre si.

 

Museum of Ice Cream (MOIC) | Créditos: Wedding Chick

Voltando ao Brasil, para os apressadinhos do dia-a-dia também estão surgindo ótimas opções de serviços para contemplar suas necessidades, com foco em experiências. O The Coffee é uma rede curitibana de (micro) cafeterias que tem se sobressaído no mercado por conseguir unir o estilo "grab and go" com um toque de aconchego (por mais contraditórios que possam parecer os conceitos). O segredo dos seus estabelecimentos de apenas 3m²

certamente se dá por compreender as necessidades do seu público — jovem, descolado e atarefado —, e utilizar soluções inteligentes para atendê-lo efetivamente. Nas cafeterias, a utilização do minimalismo como base para essas soluções é percebida desde a decoração até o funcionamento do atendimento: os espaços são projetados para comportar apenas um barista e um assistente por vez, e para o público não há mesas ou cadeiras, apenas um balcão com um tablet. Para fazer os pedidos, não há funcionários no caixa; só é possível realizá-los através do tablet sobre o balcão ou do app da rede (nesta segunda opção, é possível ainda agendar um horário para buscar o pedido, evitando qualquer possibilidade de fila). E o aconchego manifesta-se de modo mais sutil, porém bastante presente, sendo encontrado não apenas nos saborosos cafés oferecidos, mas em toda a experiência da marca. Isto é, a atmosfera cool gerada em cada ponto de contato (decoração, fachada, identidade visual, design de embalagens, aplicativo, e o próprio funcionamento geral) entrega ao consumidor uma consistência de serviço que, sem dúvidas, o assegura de que a rede compreende seu estilo de vida e que, ainda, entrega mesmo o que promete. Para o The Coffee, a diferença está realmente nos mínimos detalhes.

Outro negócio que surgiu recentemente em Curitiba e tem trazido novidades em conceito é o Cine Passeio. Inaugurado este ano, em 2019, o lugar é uma revitalização de um antigo quartel da cidade localizado na conhecida Rua Riachuelo, que agora oferta um espaço com diversas salas de cinema, ambientes para eventos, sala multiuso e inclusive uma cafeteria. Revivendo o charme dos “tempos analógicos”, a proposta é recriar o conceito do cinema de rua repaginando-o com as mais recentes tecnologias audiovisuais, como a reprodução em 4K e até mesmo o streaming — a propósito, o Cine Passeio é o primeiro cinema do Brasil a oferecer uma sala de streaming. Além disso, o local agora hospeda diversos eventos artísticos, tornando-se um point de encontros e fomentando a cena cultural da cidade. É evidente que o Cine Passeio nasce de um momento onde o saudosismo retrô, o progresso tecnológico, o espaço para a cultura e a necessidade de conexão humana urgem nos anseios da população. Aí estão aspectos que, retomando as definições da tendência "Vivenciando Experiências", fazem um ótimo resumo da obra.

 

Exibição de filme na fachada do Cine Passeio, durante o evento de inauguração (2019) | Créditos: Reinaldo Bessa (blog)

Se repararmos bem, em todos os cases acima nota-se que é num misto de voltar às raízes e desfrutar das novidades do futuro — já presente — que atualmente se delineiam as experiências mais apreciadas pelo público. Queremos nos sentir cercados de outros como nós, queremos novas formas de nos surpreender, queremos usufruir do simples ao luxuoso, e queremos mais tempo e acesso para poder viver tudo isso à risca. Por outro lado, todos esses quereres perdem valor se não estiverem acompanhados do seu verdadeiro fator comum — é que queremos, acima de tudo, significado.

Para os empreendedores, portanto, é preciso reparar se seus negócios são capazes de expressar um propósito principal em todos os pontos de contato com o cliente. A qualidade ou a forma do atendimento são compatíveis com os valores da empresa? O produto, ou serviço final, atende ao estilo de vida e às expectativas da audiência em questão? Quais são as sensações e narrativas que o consumidor vivencia ao entrar em contato com o negócio? Atentar-se a essas respostas é fundamental para compreender quais são as reais experiências vividas pelo público. Mas reiteramos aqui nenhuma dessas respostas servem se, antes delas, não soubermos responder a estas duas perguntas primárias: “que benefícios a sua empresa leva para a sociedade? Qual é o maior propósito do seu negócio?”.

Comunidade Sebrae
Mauricio Reck
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Consultor de Inovação no Sebrae/PR & CEO na UNA Smart!

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