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"O Futuro do Agro" Tema: Capital Humano

A percepção do ser humano enquanto capital de uma empresa, não é unânime. Isso ocorre devido a sua intangibilidade, afinal, mensurar quantitativamente qualidade, know how e expertise não se constituem em uma tarefa fácil. Nem a mensuração nem a identificação como tal.

Essa dificuldade de percepção do humano enquanto riqueza, deve-se a uma construção social herdada por nós, proveniente do sistema de produção vigente. 

Responsável por uma revolução no setor automobilístico e pela implantação de uma metodologia de produção em série,  o visionário Henry Ford, não reconhecia o indivíduo enquanto capital humano, apenas considerava sua força braçal para produzir.

Henry Ford, protagonizou a seguinte frase: “Contratamos operários porque precisamos de seus braços e pernas, pena que ele tem que trazer a cabeça junta” (ADMINISTRADORES.COM, 2011).

Essa percepção remonta a década de 1930. 

Ao mesmo tempo que essa frase pode ser considerada antiga demais, nos remete a reflexão: será que este modelo de gestão de capital humano ainda está presente na atualidade? Como identificar se o modelo de gestão executado em minha empresa apresenta alguma semelhança com o modo de pensar e de produzir de Henry Ford? Como gerenciar com sabedoria o know how e a expertise que tenho disponível através do capital humano em minha empresa?

Para refletirmos melhor sobre esses questionamentos é importante ter conhecimento sobre a conceituação de capital humano e o que o compõem.

Segundo Senar PR, “o estoque de capital humano da empresa ou instituição é um dos seus mais importantes ativos, embora tradicionalmente não esteja explicitamente considerado nos projetos de investimento de capitais”. Para este capital também faz-se necessário as mensurações conforme os demais capitais investidos, como por exemplo, o tempo disponível e a qualidade do trabalho. A qualidade possui relação direta com a educação formal, as capacitações e formações realizadas e com a saúde. As oportunidades, acesso a informação, aspectos culturais e a disposição ao trabalho são fundamentais no desenvolvimento humano formando-o eticamente e moldando sua vontade de vencer (SENAR PR, 2008). 

A falta de reconhecimento do ser humano enquanto capital parece ser mais forte no meio rural. Isso fomenta o esvaziamento deste meio. Conforme dados do IBGE esse movimento de saída do meio rural afeta mais o público jovem. O último Censo registrou que, nos últimos 11 anos, a presença de jovens no campo, caiu de 14% para 10% no Brasil (IBGE, 2017). Uma forma de validar isso, pode ser olhar ao entorno de sua empresa no agro e refletir sobre a quantidade de propriedades e vizinhos que permanecem no meio rural. Talvez olhar para dentro de sua própria empresa… Como será a sucessão familiar dela? 

Dentre outros motivadores deste movimento de saída dos jovens do meio rural, um deles apresenta-se como recorrente: o modelo de gestão centralizador. Arrisco em dizer que, o modelo de gestão centralizador e seus desdobramentos, que vão desde a execução das atividades diárias sem abertura para ideias novas até a falta de “autorização” para sonhos pessoais, são os principais impulsionadores deste esvaziamento da juventude no meio rural. Outro fator de extrema importância, é o sistema de comunicação interno, o qual na maioria das vezes, classifica-se como impositivo e autoritário. Este modelo de comunicação além de não ser assertivo gera desmotivação na execução das atividades, as quais por consequência podem não atingir o resultado esperado/almejado. Ainda, quando atingem consideram somente o aspecto econômico, o TER, e não contemplando o SER. Este diagnóstico vem da observação da realidade, de mais de 20 anos executando serviços ligados ao meio rural.

Essa percepção não é só minha. Ela se conecta e se soma ao diagnóstico de outras pessoas e entidades. O Senar PR compartilha que, existe a “necessidade do empresário rural superar determinadas limitações relativas a atitudes excessivamente centralizadoras de alguns, especialmente na gestão de recursos humanos” (PER 2008).  

A construção de um novo modelo de gestão se dará a partir de um trabalho contínuo, pautado principalmente nos princípios da inteligência comportamental, emocional e financeira

A (re)construção de um novo modelo de gestão só vai acontecer a partir de um despertar por parte do empresário. Despertar esse, que depende somente da iniciativa do indivíduo. O modelo educacional vigente, já citado por nós em artigos anteriores, prepara com foco na execução de tarefas, no trabalhar para Ter, constituir patrimônio.  As conquistas financeiras são necessárias sim! Necessita-se construir patrimônio, ter condições de vida saudáveis, alimentação adequada… enfim, precisa-se Ter. Ocorre que somente o Ter pode não Ser suficiente. Faz-se necessário um equilíbrio entre o Ter e o Ser.

É justamente a necessidade de conquistar este ponto de equilíbrio que precisa ser despertada dentro do indivíduo para que a partir dela, implante-se um processo mental de crescimento. O conhecimento proporciona uma inquietação que por sua vez fomenta o desenvolvimento de novas habilidades, de um pensar crítico, com atitudes pró-ativas. O ser humano precisa querer desenvolver-se. E para querer, precisa sentir a necessidade, encontrar um motivo para a ação: uma motivação.

A sucessão familiar e a continuidade de seus negócios no agro, parecem ser um excelente motivador para toda e qualquer alteração no modelo de gestão atualmente praticado.  

Construir e praticar um modelo de gestão que contemple a sobrevivência e satisfação das pessoas que estão atualmente na propriedade, pensando na sucessão dos negócios e da empresa, é algo que precisa ser trabalhado no todo e por todos. Essa construção cooperada e contínua, deve considerar os cinco capitais presentes na empresa do agro.

Fonte:(PER 2008)

Em artigos anteriores, tratamos sobre capital social, natural, físico e financeiro. Hoje finalizamos os cinco capitais que permeiam a empresa no agro, falando sobre o capital humano. Em todos eles destaca-se a importância do indivíduo no processo de gestão. O ser humano, diferentemente da percepção de Henry Ford na década de 1930, é parte integrante fundamental no processo de gestão e não somente enquanto executor de tarefas.

No artigo sobre capital social, destacamos conforme nosso entendimento, que o resgate do histórico familiar é um importante passo pois possibilita conhecimento e valorização das conquistas alcançadas. Neste, também destaca-se a importância em conhecer os sonhos de todos os membros da família, considerando-os no planejamento empresarial. O sentimento de pertencimento, “sentir-se parte de algo maior”, segundo a  ciência da administração, é o principal elemento motivador no trabalho.

Ainda sobre sucessão, outro fator motivador identificado para os jovens no agro, é a definição de um pró labore. A liberdade do jovem em gerenciar seu próprio dinheiro traz muitos benefícios e rompe a dependência do “pedir dinheiro” ao patriarca. Para que se chegue a esse ponto, faz-se necessário a execução de uma gestão eficaz no fluxo de caixa, considerando as particulares da atividade rural exercida (sazonalidades). Pondera-se neste quesito, que em muitas empresas do agro, o pró labore não está definido nem para o patriarca. 

Este assunto conecta-se com o capital financeiro e a gestão como sua aliada na construção do resultado positivo. Pontuamos no artigo  a importância do planejamento, das anotações e do controle contínuo para se potencialize a eficácia na gestão.  Esses procedimentos também se revelam de extrema importância quando se trata de capital físico, todo e qualquer investimento para ser “auto pagável” deve ser pontuado, estudado e planejado. Investimento em capital físico ocioso pode se dizer que é dinheiro não aproveitado de forma inteligente.

Acredito que o despertar para o sucesso está numa frase que sempre uso: “não importa o que eu tenho e sim o que eu faço com aquilo que eu tenho”.  Para que se possa tomar decisões mais assertivas, faz-se necessário conquistar um equilíbrio consciente entre a inteligência comportamental, emocional e financeira.

A sucessão familiar e dos seus negócios só vai existir a partir do modelo de gestão adotado no presente. Execute essa gestão com sabedoria!

Conquiste, celebre e seja grato!!

 

Luiz Augusto Burei

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REFERÊNCIAS

SENAR PR; SEBRAE; FETAEP; FAEP . Programa Empreendedor Rural. Projetos. 2008.

ADMINISTRADORES.COM. Empresas são máquinas de comunicar informações e tomar decisões. Disponível em: Abr. 2011. Acesso em Ago. 2020.

IBGE. Censo Agro 2017. Disponível em:  Acesso em Ago. 2020.

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