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Tomada de decisão para a inovação

Tomada de decisão para a inovação

"Os planejamentos estratégicos das empresas em todo o mundo já não valem mais – estamos vivendo um momento histórico complexo, que reforça a sabedoria de Sócrates do 'só sei que nada sei'." A constatação veio do professor e consultor Gino Terentim e me levou imediatamente a questionar: como tomar boas decisões nesse momento em relação à inovação e à transformação digital de uma empresa?

Esses dias atendi um cliente, um empreendedor, que queria a indicação do caminho certo: “Por onde devo ir? Quais passos seguir para trazer a inovação para dentro da minha empresa?” Como aprendemos lá no século XX, temos a tendência de buscar benchmarks no mercado, trazer especialistas para identificar respostas e queremos encontrar a solução pronta que melhor se encaixa no nosso caso. Fazemos toda uma engenharia reversa para entender qual o passo a passo por trás do sucesso, para podermos então replicá-lo.

Com uma frequência maior do que a gente imagina, empreendedores, empresários e gestores por todo o mundo, avaliam seus desafios de inovação e buscam soluções assim, utilizando abordagens que podem até funcionar muito bem em cenários previsíveis, padrões e óbvios (como na lógica da era industrial, por exemplo), mas que passam longe do resultado esperado em momentos de alta complexidade, de inovação e de tecnologias exponenciais.

Para entender por que as melhores práticas falham nestes casos, é preciso primeiro entender que existem níveis variados de previsibilidade e complexidade nos problemas que enfrentamos e, por isso, simplificações prejudicam as análises e, consequentemente, os resultados. Em segundo lugar, temos que aceitar que tomar boas decisões requer energia, informações e análise do contexto em que estamos.

Dave Snowden, consultor sênior da IBM, criou um framework, o Cynefin (leia quinévin – lugar de vários pertencimentos em galês), para ajudar executivos a entender mais rapidamente o contexto no qual estão operando, de forma que faça sentido, ou seja, que possam entender o cenário e agir nele. Segundo ele, “good leadership is not a one-size-fits-all proposition” – ou para ter uma boa liderança, esqueça a lógica de que ‘um tamanho serve para todos’ (tradução livre). A solução certa no contexto errado, é a solução errada.

O framework apresenta cinco domínios: i. simples (simple); ii. complicado (complicated); iii. complexo (complex); iv. caos (chaotic); e v. desconhecido (disorder). Snowden ressalta que o Cynefin não foi criado para categorização de problemas, mas sim para um esforço de sensemaking (“capacidade ou tentativa de dar sentido a uma situação ambígua”, por Gary Klein). Conheça melhor os domínios:

⭐ Todo problema que pode ser resolvido por meio de um passo a passo, de uma melhor prática, é do domínio óbvio. Linha de montagem, por exemplo: sabemos exatamente o que entra e o que sai e quando algo sai do padrão, apertamos o botão de emergência e seguimos o passo a passo para encontrar a solução.

⭐ Os problemas que pedem a análise de um especialista para identificar a solução, são do domínio complicado. Aqui podemos citar o exemplo de médicos: o diagnóstico correto e o melhor tratamento para um caso, dependem de uma série de perguntas, exames e análise, bem como da experiência do profissional.

Os dois primeiros domínios são de sistemas ordenados, controláveis. Ou seja, benchmarks, boas práticas e checklists funcionam muito bem para estes tipos de problema. E só.

⭐ Quando temos controle apenas sobre uma parte do sistema por trás do problema, entramos no domínio do complexo. Aqui, não conseguimos mapear os padrões e ter uma visão do todo, assim, o resultado das nossas ações é imprevisível. Por isso, o caminho está em dar um pequeno passo experimental e testar as reações que ele gera no sistema, para então continuar agindo. A comunicação, por exemplo: não podemos garantir como as pessoas vão reagir a nossa mensagem e corremos o risco de encarar resultados totalmente contrários aos planejados.

⭐ Ao acontecer uma catástrofe e enquanto não conseguimos entender o cenário, temos um problema do domínio do caos. O sistema caótico é aleatório, sem restrições, inédito e difícil de criar ou sustentar. Pense como exemplo, os primeiros momentos do rompimento de uma barragem. Nestes casos, a solução é agir imediatamente para sair do caos. A partir daí, é preciso fazer uma nova análise para identificar os problemas gerados nos outros domínios e então agir de forma coerente.

⭐ Finalmente, o domínio desconhecido engloba todos aqueles problemas que ainda não conseguimos enquadrar em nenhum dos domínios anteriores, por falta de conhecimento sobre eles. Aqui, pode ser que eu não tenha informações suficientes sobre o problema ou que ele me parece estar em mais de um domínio ao mesmo tempo. Neste caso, preciso separar este problema em problemas menores para que cada um esteja integralmente em um único domínio.

Um exemplo bem atual do desconhecido é a pandemia do Corona, que pode ser dividida em diversos problemas mais específicos, como a questão da multiplicação e contenção do vírus (complicado), diretrizes para profissionais e empresas ao atender o público (simples) e o posicionamento de governos e empresários nas mídias (complexo).

Quando falamos em inovação, não tem como olhar para outro domínio que não o do complexo. Não há padrões, não há práticas validadas. O que é realidade hoje, em uma semana já pode estar obsoleto. O que é inacessível hoje, pode estar democratizado em menos de um ano. A solução na inovação precisa emergir, ou seja, é a partir de tentativas que nos adaptamos ao novo e encontramos as respostas. O risco que corremos aqui é o de errar, falhar, fracassar (três vezes mesmo, que é para não passar batido). Tim Harford, em seu livro Adapte-se: o sucesso começa sempre pelo fracasso, indica três ações essenciais para agir:

“[...] experimentar coisas novas, na expectativa de que algumas falharão; tornar o fracasso passível de sobrevivência, porque será comum; e ter certeza de que você sabe quando você falhou.”

O caminho? Teste pequeno, entenda o que aconteceu e responda a isso. O pré-requisito? Criar um ambiente seguro para experimentação.


Agora que você conhece um pouco mais sobre os diferentes domínios para uma boa tomada de decisão, já deve ter percebido que é essencial entender de forma objetiva qual é o problema que precisa ser resolvido e onde está o seu binômio problema-solução, lembrando que, em problemas complexos, o passado não vai explicar o futuro.

Assim, convido você a pensar (e agir): 

  • Qual é o binômio que você pode melhorar na sua empresa hoje?
  • Em qual problema complexo de inovação você está tentando aplicar uma solução óbvia ou complicada?
  • O que você pode e vai fazer ainda hoje para mudar essa situação?

Compartilhe comigo os seus insights e percepções nos comentários. 👇

Empresas Inovadoras

Comunidade Sebrae
Vivian Escorsin
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Eu acredito que podemos transformar o mundo por meio da educação e da colaboração e que a criatividade é uma habilidade de todos, que depende de um ambiente seguro de prática para se expressar e gerar inovação e negócios. :)

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