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Formigas, Lupas e Administração

Formigas, Lupas e Administração

por Prof. Bruno Oliveira. Unipar – UNIVERSIDADE PARANAENSE.

Certa vez, um aluno do curso de Administração me pediu uma indicação de leitura, recomendei de imediato Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez. Este me questionou que aprendizado poderia ele tirar para o mundo dos negócios de uma obra de literatura de realismo fantástico.

Tal indagação, me leva a pensar que esta aí justamente a resposta que muitos jovens procuram, do motivo pelo qual fazer um curso superior. O apelo mercadológico por vezes, ofusca a essência regularmente esquecida da Universidade e seu papel como agente de evolução da sociedade.

Na contracorrente do pensamento popular, nenhum curso superior irá fazer milagre ou algo por si só por quem estuda e tampouco garantir um lugar ao sol. Depende muito mais do que se faz com oque se aprendeu. O antropólogo George Zarur, apresenta em um ensaio brilhante sobre essa perspectiva para quem quiser se aprofundar no assunto e verificar que, o ensino é muito mais que uma mercadoria, e sim a busca pelo conhecimento que nos torna muito mais que ávidos trabalhadores, mas melhores pessoas, sabendo diferenciar ciência e técnica, conceitos que hoje poucos sabem separar.

Cem anos de solidão, narra a história da fictícia cidade de Macondo e a ascensão e queda de seus fundadores, a família Buendía.

Os seis personagens centrais, que dão início ao romance e dominam a primeira parte, são: José Arcádio Buendía, o entusiasmado fundador da vila de Macondo; a esposa dele, Úrsula Iguarán, espinha dorsal não só da família, mas também do romance inteiro; os filhos, José Arcádio e Aureliano – o último, coronel Aureliano Buendía, considerado em geral o principal personagem do livro; a filha, Amaranta, atormentada quando criança e amargurada como mulher; e o cigano Melquíades, que traz as notícias do mundo exterior e, por fim, estabelece-se em Macondo.

O crítico Robert de Andrade faz o seguinte insight:

“Jamais vou me esquecer do Coronel Aureliano Buendía, que morreu sozinho, fazendo peixinhos de ouro. O mais incrível desta passagem é que ele vendia os peixinhos por uma moeda de ouro, dela fazia outro peixe e seguia nesse círculo vicioso.
Muitas vezes me pergunto se o que tenho feito não é algo parecido ao que o coronel fazia no livro; repetindo as tarefas de forma mecânica e alienada”. Os jornais me parecem assim, a moda e até a mesmo a natureza. Será então que tudo está pronto e iremos eternamente repetir?

Por outro lado, podemos considerar que a tarefa do Aureliano era, acima de tudo, o fazer. Ele tinha duas escolhas: preencher o seu tempo com algum tipo de ação ou simplesmente viver em um vazio. O fazer é o que nos torna humanos, não somos apenas instinto, pois o fazer instintivo, sim, é parte de um ciclo natural. A natureza depende dessa repetição para manter a sua harmonia.
Dessa forma, o fazer do homem, por mais recorrente que pareça, sempre irá transformar o mundo. A tarefa do inesquecível Aureliano Buendía era na verdade um círculo virtuoso, afinal, as moedas, antes agentes de discórdia, ao passar por suas mãos se tornavam magníficos peixinhos de ouro.

 

MELQUÍADES
É autor dos manuscritos que contam a história dos Buendía, os ciganos traziam notícias e novidades do mundo exterior. Para encontrar a remota Macondo, eles precisavam se guiar pelo canto dos pássaros. Veja Melquiades como o agente da inovação, um consultor comercial que traz a tecnologia para nossa empresa. O canto dos passáros, remetem as oportunidades de negócios que somente os atentos conseguem identificar e guiar-se por eles.
JOSÉ ARCADIO BUENDÍA
Fundador , sonhador e visionário, adorava as novidades que o cigano Melquíades trazia para a cidade. Obcecado pela alquimia, ( arte de transformação das coisas ). Tem seus rompantes que poẽ em risco a continuidade da família e da própria Macondo ( empresa ). Ignora que o mundo que deu espaço para o surgimento do povoado não é o mesmo que hoje necessita de sua continuidade e presença.
JOSÉ ARCADIO
O primogênito mostrou pouco interesse pela alquimia do pai. Cresceu, teve um filho com a antiga empregada da casa. Fugiu com os ciganos e voltou, anos depois, todo tatuado. A figura do colaborador rebelde, o filho pródigo.
ARCADIO
O primeiro neto dos Buendía foi criado por Amaranta e Rebeca. O irascível Arcadio cresceu forte como o pai, a figura equilibrada que por vezes garante a funcionalidade e continuidade dos negócios.

ÚRSULA
Quando se casou com seu primo José Arcadio Buendía, Úrsula, a matriarca, que sempre zelou pelo união da família com os nuances de comédia da historia. Quando morreu, tinha mais de 100 anos. Representa o gerente da empresa, otimiza os recursos disponíveis para o sustento de todos, ao tempo em que é responsável por conter o rompantes do patriarca, aparando as arestas e zelando na concretização dos sonhos.

AURELIANO
O coronel dos liberais promoveu 32 revoluções políticas contra o governo conservador e perdeu todas. Teve 17 filhos com 17 mulheres diferentes. Escapou do pelotão de fuzilamento e, ao fim das guerras contra o governo, passou a fabricar peixinhos de ouro.
AURELIANO JOSÉ
Filho de Aureliano com Pilar Ternera, foi criado (e se apaixonou) pela tia Amaranta Ela o repeliu dizendo que os filhos nasceriam com rabo de porco. “Mesmo que nasçam tatus”, ele respondeu. Mas Amaranta preferiu morrer virgem.
JOSÉ ARCADIO SEGUNDO
Os gêmeos Buendía adoravam confundir as pessoas. José Arcadio tinha fama de ser o exemplar mais apagado da família. Seu maior feito foi trazer ao povoado, numa balsa de troncos, matronas francesas para o bordel da cidade.
AURELIANO SEGUNDO
Inverso do seu irmão gêmeo, era extravagante e espalhafatoso. Casou-se com Fernanda del Carpio, uma carola cheia de pudores, e foi amante de Petra Cotes.

A COMPANHIA BANANEIRA
A estrada de ferro chega à cidade e, com ela, a companhia bananeira e a decadência. Os trabalhadores da fábrica tiveram fim trágico: foram mortos após uma greve. O modelo antigo de gestão que não tem mais lugar no mercado, e convenhamos temos muitas “Macondos” no mercado insistindo em fazer negócios com “Companhias Bananeiras .”

JOSÉ ARCADIO
A mãe o mandou para Roma sonhando em ter um filho papa. Mas José Arcadio não queria saber de igreja.( estudo ) Quando voltou a Macondo, preferiu se divertir com os garotos da cidade.
AMARANTA ÚRSULA
Após uma temporada na Europa volta casada. Mas não resiste aos encantos de um parente, que ela não sabe bem quem é. A figura romantica da história que se deixa levar pelas paixões.
MEME
Vivendo um amor proibido com o mecânico Maurício Babilônia, Meme é presa em casa. Mas Maurício a visita por uma fresta no telhado do banheiro, até que são descobertos. Meme vai para o convento e Maurício fica inválido após levar um tiro. O elemento trágico vitima das más escolhas feitas, todos conhecemos alguém assim em nossas empresas.

Algumas particularidades formidáveis da histórica chamam a atenção, como o deslumbre de José Arcadio com uma Lupa, que nada mais é que a aplicação de leis de física no vidro, visando ampliar a visão de objetos. Para aqueles que não tem o conhecimento, um instrumento de tenologia se torna mágico, e por vezes se espera que faça por si só milagres, como por vezes achamos que a tecnologia fara por nós. Empresas que compram lupas mas não investem em conhecimento para melhor utiliza-la ou entender seu mecanismo, ficam sempre na mão dos Melquiades de nossa realidade.
Um fato demasiado simples para maioria, me chama a atenção em particular nesse romance, com a lupa, logo no começo do romance de Marquez, Jose Arcádio examina com olhos de criança as formigas, e para mim aprende com elas, tal como na definição de ciência, que se busca reproduzir resultados semelhantes em condições mais ou menos variadas sendo capaz de se inspirar em sua sistemática de trabalho nas proporções superiores de Macondo. José foi grande por saber olhar o pequeno com olhar de criança, por ter a ousadia de sonhar o impossível sem se reprimir.

Semelhante também, é a passagem dos peixinhos dourados citada acima, que abre margem pras mais diversas interpretações, partindo da premissa que são as perguntas que movem o mundo, o quê seria o “peixinho dourado” de sua empresa ?

Poderia eu, ter indicado um livro técnico de algum guru de administração mas, a contemporaneidade não tem espaço para fórmulas prontas, nem lugar para posturas engessadas onde diríamos que o segredo do sucesso, esta em seguir algum modelo pronto de alguns dos curiosos personagens da obra.

Nos cem anos narrados, houveram 17 Aurelianos, cada qual com suas qualidades e defeitos. Seria o mesmo Aureliano em momentos diferentes no dizendo a pluralidade de opções de comportamentos que poderíamos ter, em diversas situações?

Assim, é muito mais enriquecedor a leitura de uma obra desta do que um manual com alguma receita de negócios. As gerações mudam, os personagens evoluem com o povoado.

E temos mais uma aplicação da ciência pura na sociedade, o conceito da física conhecido por entropia, que é um conceito da termodinâmica que mede a desordem controlada das partículas de um sistema físico. Por mais que consigamos aplicar técnicas e conceitos desejados, isso só é pragmático até certo ponto, tão como no mundo micro é, no mundo macro será. Nas empresas em maior ou menor grau existe como na obra, um grau de entropia, um nível de desordem controlada, principalmente em negócios que dependem de um processo criativo que possivelmente não seria eficiente em um ambiente que sufocasse e amarrasse tal atividade.

Um pano de fundo ilustra Cem Anos de Solidão, a repetição que pode ser observada no perfil solitário que acompanha os personagens. Todos os membros da família Buendía possuem um ar de solidão. O espírito solitário é inerente ao clã Buendía. Por exemplo, o patriarca José Arcadio Buendía “foi abandonado à sua solidão”.
O filho José Arcadio era “ansioso de solidão”. O coronel Aureliano Buendía tinha uma “clara vocação solitária”; ele era conhecido pelo seu “temperamento solitário e evasivo”. Amaranta “sofria o espinho de um amor solitário”. Rebeca “conquistou os privilégios da solidão”. Aureliano Segundo e Petra Cotes encontraram “o paraíso da solidão compartilhada”. Não vejam isso com maus olhos, como é imposto pelos veículos de mídia comercial que vendem, independente de seu produto, a necessidade de se conectar o tempo todo com tudo,pois a solidão de forma dosada é salutar para o contato com alguém que muitas vezes dificilmente conhecemos, nós mesmos.

Além da herança solitária, o movimento circular eterno aparece na perene repetição dos nomes das personagens. Os homens da família Buendía recebem o nome de Aureliano ou José Arcadio. Já as mulheres são chamadas de Úrsula, Amaranta ou Remédios. Ademais, os nomes determinam o comportamento de cada personagem. Ou seja, o caráter do personagem é um reflexo do seu nome. A personalidade imposta pelo nome foi percebida por Úrsula que notou que “os Aurelianos eram homens angustiados e retraídos dotados de mentalidade lúcida; já os José Arcadios eram homens impulsivos e empreendedores, mas marcados por um signo trágico”. ( Definição atemporal ).

“Com efeito, a ciclicidade temporal é visível no retorno permanente dos vícios. A família Buendía foi devastada pela repetição incessante dos defeitos que corrompem a vertente masculina. A matriarca Úrsula constatou que a trajetória decadente da sua estirpe decorre do gosto exarcerbado por “guerras, galos de briga, mulheres da vida e empresas delirantes”. ( mais uma definição atemporal )

Por fim, a temporalidade circular pode ser encontrada no impulso repetitivo de construção e destruição. Os integrantes da família Buendía tem o hábito permanente de fazer e desfazer como o “coronel Aureliano Buendía com os peixinhos de ouro, Amaranta com os botões e a mortalha, José Arcádio com os pergaminhos e Úrsula com as lembranças”. Todos sofrem com o costume contínuo de começar e recomeçar uma atividade. A eterna repetição de iniciar um trabalho com o intuito de reiniciar.”

Sejam José Arcadio na busca pelos vossos sonhos, Arcardio para realiza-los, Aurelianos para manter o conquistado e Amaranta nas paixões.

Em suma, respondendo a questão inicial desse texto, quebrando o paradigma do imediatismo e soluções prontas e o velho jargão de “qualquer um pode abrir uma empresa”, realmente, qualquer um pode fazer qualquer coisa. Mas ter uma formação de bacharell envolve a aplicação da ciência além das aulas corriqueiras de Metodologia da Pesquisa, que não são um fim, mas um meio para esse tipo de insight em que podemos tirar aplicações para nosso cotidiano de um livro clássico e solucionar aquele problema de estoque ou financeiro de sua empresa, que a aplicação técnica de receita de bolo do livro “Como ter sucesso em 7 passos” não funcionou.

Por fim, se não ficaste convencido do utilitarismo dessa obra prima de Gabriel Garcia Marquez para o contexto empresarial, leia a obra pelo simples prazer de ler um bom livro, afinal já dizia o Coronel Aureliano Buendia:

”Tivera que promover 32 guerras, e tivera que violar todos os seus pactos com a morte e fuçar como um porco na estrumeira da glória, para descobrir com quase quarenta anos de atraso os privilégios da simplicidade.“ — Gabriel García Márquez

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