[ editar artigo]

Neurociência, Liderança e o Dilema das Redes

Neurociência, Liderança e o Dilema das Redes

O mundo é lindo. Está um belo dia lá fora”. Essa frase encerra a reflexão proposta pelo documentário O Dilema das Redes em exibição na Netflix. No filme, várias pessoas que ajudaram a criar algumas redes sociais, apresentam motivos para questionar a maneira como são utilizadas e suas consequências no comportamento e na saúde coletiva.

Já sabemos boa parte dos argumentos apresentados, mas me chamou a atenção, no final do documentário, que alguns se encorajam para pensar soluções possíveis e uma das entrevistadas enfatiza: “Faltam pessoas para falar abertamente sobre as coisas que deram certo, mas também o que não é perfeito, para que alguém possa criar algo novo” – ela está falando do papel das lideranças no desenvolvimento do pensamento crítico, que pode incentivar e sustentar o processo criativo e a busca de soluções. 

Além de fomentar o pensamento crítico e a criatividade, quais podem ser as estratégias utilizadas pelos líderes para ajudar seus colaboradores nesse desafio?

O problema retratado no filme é recente e pertence a todos. Não temos soluções antigas, nas quais podemos nos apoiar para minimizar esse dilema, da mesma forma que não tínhamos experiências anteriores que fossem úteis aos desafios pandêmicos. Novos problemas exigem novas soluções. Vamos precisar aprender e construir essas estratégias juntos. A Psicologia e a Neurociência trazem contribuições importantes para nos ajudar nesse enfrentamento e minimizar o impacto das redes sociais na saúde e na performance dos colaboradores. Em relação ao papel dos líderes, podemos pontuar alguns:

Atenção. A atenção do usuário das redes sociais é o produto de maior interesse das empresas que estão por trás da manipulação; é o nosso bem mais caro e deveríamos tratá-lo como tal. Vivemos em uma crise atencional há bastante tempo e suas graves repercussões – queda de desempenho no trabalho, acidentes de trânsito, problemas de comunicação, entre tantos outros. Nesse sentido, a criação de programas de treinamento e desenvolvimento para facilitar a compreensão das principais redes atencionais, seu funcionamento e estratégias para aperfeiçoá-las (Biofeedback, Neurofeedback, Mindfulness), podem ser maneiras eficazes de diminuir a dispersão causada pelas redes. As pessoas precisam “prestar atenção onde está sua atenção” e a sua interferência na qualidade de vida, na performance e no engajamento ao propósito individual e coletivo. Sem foco, há procrastinação e aumento do estresse, comprometendo a saúde e o desempenho individual e da equipe. Os líderes precisam cultivar o hábito de se questionar e provocar o mesmo em seus colaboradores: “isso realmente merece a minha atenção?” Esse questionamento pode ser uma estratégia simples para sair do piloto automático e assumir o protagonismo na empresa e na vida pessoal.

Multitarefas. Um treinamento que visa melhorar o gerenciamento da atenção precisa incluir a desmistificação da ideia de que somos multitarefas. Há muito tempo se sabe que o cérebro libera os hormônios do estresse e consome muito mais energia quando estamos fazendo mais de uma tarefa ao mesmo tempo. Compreender esses mecanismos cerebrais e o desperdício de energia quando estamos trabalhando e acessamos as redes, pode ser um diferencial importante para aumentar a produtividade e o bem-estar dos colaboradores.

Protagonismo. O uso excessivo das redes sociais afeta a capacidade de humana de assumir o papel principal na sua história, limitando-se ao papel de coadjuvante. O neurocientista Miguel Nicolelis cita vários estudos que chegaram às mesmas conclusões: no momento em que alguém desempenha papel coadjuvante em relação a um computador, as habilidades humanas tendem a degradar, aumentando a frequência de erros que antes não eram tão comuns. Da mesma forma, Nicolelis e colegas sugerem que “terceirizar” conhecimento para o Google pode reduzir a habilidade cerebral de criar e recuperar memórias de forma confiável, afetando a aprendizagem. Protagonismo depende de aprendizagem constante e esta depende da memória – da capacidade de armazenar, consolidar e evocar conteúdos relevantes para o enfrentamento dos desafios.  Um dos entrevistados sugere: “Seres humanos criaram tudo isso; seres humanos podem mudar a tecnologia” – ou seja, diríamos que o ser humano  protagonista de sua história  pode mudar o uso que faz da tecnologia através de treinamentos que promovem maior autoconsciência, especialmente dos líderes dentro das organizações.

Complexidade social e sentimento de tribo. Pesquisas sugerem que a grande conectividade de pessoas nas redes simulam antigos sentimentos de pertencimento a um grupo, porém sem a proteção e o cuidado que a vida tribal nos trazia, e ainda com a sobrecarga ao córtex cerebral ao expandir dramaticamente o número de pessoas com que cada um dos usuários é capaz de se comunicar. Na “teoria do cérebro social”, proposta por Robin Dunbar (década de 90), o córtex superdimensionado nos dotou de capacidades mentais que nos permitem lidar com um grupo social formado por aproximadamente 150 indivíduos. “Acima desse patamar, verificou-se a necessidade imperativa de introduzir supervisores, diretores e uma série de ferramentas e processos administrativos para se manter a par da dinâmica do grupo social humano que interage nessas organizações” (Nicolelis, 2020). Nesse sentido, estimular o sentimento de pertencimento na equipe através de treinamentos específicos para desenvolver a inteligência emocional, pode reduzir a ansiedade dos indivíduos de buscar essa aceitação ilusória nas redes. 

Para finalizar, cito a Teoria do Cérebro Relativístico, na qual o neurocientista Miguel Nicolelis propõe: “para perceber algo, a cada instante, o cérebro tem que confrontar o que o seu modelo interno do mundo prevê com o fluxo contínuo e multidimensional de múltiplos sinais sensoriais que, uma vez coletados na periferia do corpo por receptores especializados, são transmitidos para o sistema nervoso central, como forma de descrever o estado do mundo externo (e também as condições internas do corpo).” Ele chamou esse fenômeno de ponto de vista do cérebro - nossas percepções são relativas, dependem das nossas vivências, da nossa cultura, e da nossa psicofisiologia. Isso significa que, ao limitarmos nossas experiências predominantemente ao um mundo virtual (limitado pelos algoritmos, que mostram somente o que queremos ver), restringimos nossa percepção e a receptividade de sinais que podem desencadear mudanças positivas e significativas na nossa vida e no nosso comportamento. A restrição a uma vida virtual também causa mudanças funcionais e morfológicas, mas que não são positivas – vicio nas tecnologias, ansiedade, depressão, redução da memória, entre outras. Esse fenômeno se baseia na infindável capacidade do cérebro de se adaptar. Essa propriedade adaptativa é chamada de plasticidade, que permite que os neurônios alterem tanto as suas propriedades funcionais quanto morfológicas, e a distribuição e a intensidade de suas sinapses (conexões estabelecidas com outros neurônios).

Resumindo, precisamos enriquecer os nossos ambientes com estímulos sensoriais que permitam novas conexões, através de vivências reais da comunicação assertiva, da apreciação da arte, do convívio com a diversidade, do exercício de respiração consciente, de trocas de conhecimento, enfim, experiências ricas em sensações, que promovam uma mudança que nos mantenha conectados com cérebros, mentes e o dia lindo lá fora.

O livro citado no texto é "O verdadeiro criador de tudo - como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos." - Miguel Nicolelis; Editora Planeta, 2020.

Gestão de Pessoas e Liderança

Comunidade Sebrae
Simone Grohs
Simone Grohs Seguir

Psicóloga e pós-graduanda em Neurociência, escritora e palestrante, dedicada ao trabalho na área de desenvolvimento humano há 24 anos.

Ler conteúdo completo
Indicados para você