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Gestão do Zero: Ter sócios ou empreender solo?

Gestão do Zero: Ter sócios ou empreender solo?

[Você pode escutar este conteúdo em formato de podcast em seu player preferido.]

Agora que você já tem o plano estruturado e já sabe como financiar a sua ideia, quero levantar o debate sobre o time que irá, efetivamente, fazer a mágica acontecer. Esse tema é polêmico e recorrente, e o meu foco hoje não é te dar soluções, mas, te fazer provocações.

Saiba, desde já, que não existem regras aqui. Temos histórias de empreendedores solo incríveis (Jack Ma, do Alibaba, e Jeff Bezos, da Amazon, por exemplo), e de equipes incríveis (os Steves da Apple, sem dúvida, formaram a combinação perfeita para a startup). Por tudo isso, entenda que esta é a primeira grande decisão que você terá que tomar – e ela não é técnica –. Nesse ponto, abuse do seu feeling de empreendedor!

Empreendendo sozinho

Empreender sozinho é muito tentador. Até 2010, mais ou menos, costumava-se torcer muito o nariz para sócios. Eram raras as empresas bem sucedidas que tinham, de fato, múltiplos sócios. Dizíamos com bom humor – e um grande fundo de verdade – que sociedade era igual casamento sem sexo: se não tivesse dinheiro também, virava um terror insustentável.

Essa brincadeira do casamento ela é algo importante a ser ponderado: montar uma sociedade na abonança é muito fácil, mas sustentá-la na crise pode ser um grande desafio. Por isso, empreender solo tem uma vantagem incrível: não há expectativas geradas no lado societário, e assim também não há frustração.

Outro ponto muito legal de empreender sozinho é a velocidade das decisões: elas estarão 100% na sua mão, e você poderá seguir o caminho que lhe for mais conveniente. Você decidirá o seu salário, a retirada de lucro e até a cor da parede no escritório.

Existem, é claro, alguns problemas em empreender sozinho – e vou ponderar alguns deles para você aqui. Mas, como sempre, minha intenção é te oferecer insights, não “dicas”. Ah, e um ponto importante: como já falamos de funding no conteúdo anterior, eu não vou entrar aqui no mérito de “ter sócio significa mais capacidade de investimento”, ok?! : )

Um dos problemas de empreender sozinho é justamente uma das vantagens dele: você estará com 100% das decisões na sua mão. O problema disso é que você não dividirá com ninguém as dificuldades. Você pode, sim, contar com mentores externos, mas são os sócios que, de fato, têm algo a perder também. E ter visões contrapostas é imprescindível para que um debate saudável aconteça.

Também, o empreendedor solo, inevitavelmente, se depara com muita solidão no processo inteiro: ele pode ser amigo dos colaboradores, mas ele sempre será o “chefe”. É algo que parece bobo, mas é preciso entender que seus colegas de trabalho dificilmente te verão como colegas de trabalho – até porque as decisões da empresa, e que afetam o dia a dia deles, estarão nas suas mãos.

Um terceiro ponto é sobre o mito de que o dinheiro resolve tudo. O dinheiro não compra pessoas engajadas, é preciso engajá-las independentemente do dinheiro. E, neste ponto, toda a agilidade que você ganha por ser sozinho é perdida na hora do crescimento: os novos líderes sentirão falta de uma liderança forte. Sozinho, você não consegue ser um líder forte de várias áreas – pelo menos uma área ficará desfalcada.

O último ponto, e não menos importante, é específico para as startups. Novamente contrapondo a agilidade oferecida pela jornada solo, escalar rápido vai ser um grande desafio -e os investidores sabem disso. Apesar de termos bons exemplos de empreendedores solos no mundo, os fundos de investimento valorizam muito times fortes. Eles têm razão: imagine que eles investem em uma empresa de um empreendedor solo e ele se acidenta – ficando 3 meses longe da operação. O risco é muito alto. Ou imagine que uma crise (covid!) chega de repente: um time bom terá muito mais criatividade para entender as possibilidades de saída da crise do que um empreendedor sozinho. Você também terá mais energia à sua volta para dividir as dores destes períodos.

O resumo da ópera: empreender solo é, sim, uma boa opção. Mas, especialmente se você tem uma startup e procurará investimento logo, lembre-se do que já foi comentado no conteúdo anterior: investidores early stage olham para o time, e não para a solução!

Empreendendo com sócios

A moda atual é empreender com sócios, já percebeu? Mas isso tem alguns motivos, como já comecei a falar ali em cima. Um time de sócios vai ajudar a empresa a se mover mais rápido no período de tração.

Talvez, no começo, haja algum atrito entre vocês. Esse atrito é bem justificável: nas fases iniciais, a interdependência das áreas é extrema e o impacto das más decisões é muito agressivo. Você depende quase integralmente do seu colega, que eventualmente toma decisões ruins.

À medida que a empresa avança, porém, e chega a hora de montar o time e atrair talentos, será preciso dar muita atenção para áreas diferentes. Neste momento, as atividades dos sócios começam a se tornar muito complementares e pouco sobrepostas. E é neste momento que você enxergará o valor de ter um time incrível.

Ok, terei um sócio. “Um”?

Agora que você tem algumas ponderações para fazer, olhe para a sua empresa e entenda o que, exatamente, ela faz. Entenda quais serão as áreas principais dela, e então você terá o número ideal de sócios – no geral, duas ou três pessoas foram um bom time. Considere como áreas-chave, por exemplo, tecnologia/produto, vendas e pós-vendas/entrega (sim, o administrativo ficará com um deles). Se não for uma startup de software, vendas e pós-vendas serão suficientes.

“Três” não é um número mágico. Existem vários motivos para você querer ter este número no seu quadro societário. Vou enumerar alguns deles:

  • Com três sócios, há sempre três pessoas opinando. As discussões terão sempre uma “vitória pela maioria”, se for o caso (esta pode não ser a melhor forma de tomar decisões dentro de uma empresa).
  • O cap table, ou seja, a distribuição de cotas da sua empresa, estará preservado, com cada sócio possuindo 33,3% da empresa. Acima disso, você já tem um cap table prejudicado logo no início. Os investidores olharão para isso no médio prazo.
  • Uma empresa, em geral, pode ser repartida em 3 grandes áreas-chave – que interagem entre si, é claro. Com 2 pessoas, pode ser que uma das pessoas esteja sobrecarregada – por exemplo, a pessoa terá que vender E entregar, ou entregar E cuidar do produto.

Estes são alguns dos motivos que você pode ponderar ao considerar os sócios.

Como encontrar estas pessoas?

Pode ser que você conheça pessoas incríveis ao seu redor, com vontade empreendedora e apetite para riscos. Se for este o caso, você deve ser algo como 1% dos empreendedores do mundo.

No geral, encontrar um sócio é uma tarefa árdua. Dois então?! É, bem vindo ao seu primeiro desafio.

Encare esta atividade como um desafio mesmo. Liste, por área de necessidade, as pessoas que você conhece. Pondere o perfil delas (empreendedor? Inovador? Gosta de discutir?) e comece os contatos com quem você entende possuir potencial. Estas pessoas também poderão indicar outras pessoas interessadas. Portanto, não descarte nenhum contato.

Você também pode recorrer às mídias sociais, postando a sua busca. Sim, sem medo! “Preciso de um sócio para cuidar da área comercial” é uma mensagem muito mais envolvente do que “estou iniciando uma startup e toda ajuda será bem-vinda”. Lembre-se que você já tem muito claro seu sonho, mas outras pessoas não. Então, enquanto você já enxerga todo o potencial e tamanho que sua empresa pode ter no futuro, as pessoas ao seu redor sabem apenas que você está “criando algo novo”.

Esta busca também é um ótimo termômetro para testar sua ideia. Você conversará com muitas pessoas que opinarão e julgarão sua ideia. É hora de aproveitar as opiniões e aprimorar sua ideia – ou se irritar com elas e entender que você, talvez, ainda não esteja pronto para ser um empreendedor. Aproveite para se conhecer nesta fase.

Seu primeiro colaborador

Aumentar o time através da contratação é uma ilusão que todo empreendedor tem. Afinal, olhamos em volta e conhecemos pessoas incríveis que não querem empreender, não é verdade?! Mas vou te contar um segredo: no seu estágio inicial, talvez você não tenha a combinação necessária para extrair o máximo destas pessoas!

E qual é essa combinação? Um bom líder, um bom propósito e uma empresa em ritmo acelerado. O começo de uma empresa pode não ter toda a energia necessária para explorar o potencial de colaboradores, que poderão se ver desmotivados ou um pouco desencontrados da ideia inicial da contratação – que “mudou na semana passada pela terceira vez”.

Se você levou a sério o time de sócios, o momento de contratar o primeiro colaborador está fácil: quando vocês encontraram a “fórmula mágica” para fazer o setor funcionar, é hora de trazer e treinar essa pessoa.

Se você é um empreendedor solo, ou possui muito dinheiro para investir, você pode então trazer profissionais de mercado a peso de ouro. Isso também fará sentido, porque eles virão com “gás todo” – só não gostam de correr os riscos do empreendedorismo.

Por outro lado, se você está iniciando uma jornada, lhe falta algum skill e você não pode trazer uma pessoa muito boa, considere aprender este skill e testá-lo antes. Contrate um consultor, fale com um mentor ou simplesmente troque uma ideia ao seu redor. No estágio inicial, colaboradores são muito importantes para ajudar a trazer novas ideias – mas dificilmente para ajudar você a pivotar a empresa, por exemplo.

Lembre-se, também, que todas as mudanças bruscas causam insegurança no time – não importa o quão bom comunicador você seja. Pessoas gostam de trabalhar em empresas que estão dando certo, que estão crescendo, que estão acelerando.

Em resumo: se você está buscando captar dinheiro para aumentar o time e, então, decidir para qual direção vocês vão, talvez seja interessante repensar esta estratégia. Esta é uma frase muito bacana do Jim Collins (“você não pode contratar as pessoas e dizer para elas a direção; elas devem decidir a direção”), mas ela não funciona para este estágio da empresa. Mais à frente, quando você tiver um produto validado e desafios mais claros, você poderá se apoiar nesta ideia. No estágio inicial, é você e seus sócios – e 150% de energia de todos vocês!

O resumo

Se você está olhando para empreender sozinho, a minha sugestão é que você pense em um bom motivo para isso. Talvez seja apenas seu ego querendo que você seja o “único realizador” do seu sonho – e, talvez, essa seja uma ótima ideia. Mas entender como isso é visto pelo mercado também é importante, especialmente se o seu negócio for uma empresa da nova economia ou uma startup. Esses negócios precisam se mover rápido e de forma assertiva, e a fase da tração exigirá muito. É possível que uma única pessoa não consiga “dar conta” das demandas do time.

Este artigo encerra a primeira fase, mais conceitual, do Gestão do Zero. A partir de agora, os conteúdos serão mais práticos. No próximo, vou falar de fluxo de caixa, capital de giro e as suas preocupações com o dinheiro nas fases iniciais! Se está gostando ou se está tendo dúvidas, deixa um comentário aqui! : )

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Henrique Gusso Netzka
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Empreendedor desde 2006, atualmente é CEO e founder do Nimbly, uma startup focada em agilizar os setores financeiro e back office das PMEs.

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