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Sobre a economia pós-Covid19: Do Observatório Fiep a reflexões antifrágeis

Sobre a economia pós-Covid19: Do Observatório Fiep a reflexões antifrágeis

Não dependa de projeções. Concentre-se nos sinais do cliente para guiar seus instintos. Planeje bem, mas esteja preparado para o pior. O Observatório do Sistema Fiep lançou nesta semana o Economia em tempos de Covid-19, que traz esses e outros valiosos insights para quem precisa tomar decisões estratégicas em grandes empresas ou, mesmo, liderar times criativos em negócios nascentes.

A publicação faz breves considerações (uma dádiva neste momento de mudanças hiper-aceleradas pelo cenário pandêmico), contextualizando o impacto multidimensional causado pelo vírus, e apresentando possíveis cenários para a retomada. O material é contribuição relevante em tempos que tudo o se precisa é  clareza.

No conjunto, parece seguir os termos da visão antifrágil de Nassim Taleb. Com o grande grau de incerteza dos mercados, melhor não depender das projeções genéricas, concentrar nos dados do segmento em que se atua, prospectando, a partir desses sinais, um caminho singular. É o tal do saber indiciário, aquele tão caro aos caçadores e aos médicos, aquele da busca dos rastros à caça, dos sintomas à medicina, conforme escreve Carlo Ginzburg em Mitos, emblemas, sinais: Morfologia e História. Como explica a publicação, o impacto do COVID-19 vai ser heterogêneo e cada setor terá um desfecho diferente, que precisará de um conjunto de medidas diverso.

Todos os setores, segundo o Observatório Fiep, serão impactados. Algumas análises são apresentadas no documento para as áreas industrial, bancário, turismo, comércio internacional, setor financeiro, comércio e serviços.

Quando avalia o passado do impacto econômico de epidemias, a publicação menciona que as trajetórias de recuperação anteriores, seja da Sars (2002), H3N1 (1968), H2N2 (1958) ou da Gripe Espanhola (1918),  tiveram o “formato de V”, ou seja, uma expressiva contração do PIB com recuperação acelerada subsequente. É difícil, entretanto, alerta a publicação, dizer que a Covid-19 conduzirá a um comportamento parecido com as demais pandemias que hoje são história.

Embora não indique qual será o comportamento econômico na retomada (afinal, caso o fizesse seria uma temeridade) sugere que a economia global deverá ser diferente de vários modos. De um lado, instituições frágeis tendem a ficar expostas, o que não plano político pode gerar instabilidades e mudanças rápidas. De outro, novas tecnologias podem estar alterando significativamente, num caminho sem retorno, o comportamento dos cidadãos, ampliando comércio e serviço a distância. Vale conferir o estudo em http://obshub.com.br/pub/covid/economia-covid-19.pdf .

Reflexões Antifrágeis

Arrisco também, uns palpites, refletindo sobre o estudo da Fiep, com tudo o que tenho lido e ouvido nas últimas semanas:

1) É como se estivéssemos vendo um mundo morrer. Só que como um mundo comporta uma rede de relações complexas, não morre tudo ao mesmo tempo. O novo e o velho vão seguir convivendo e talvez se acomodem lado a lado.

2) O modelo antifrágil tende a ganhar força. Um indício disto me veio à consciência enquanto assistia a live promovida pela Honey Island Capital, na quarta-feira. O CEO do Ebanx, Alphonse Voigt, comentava na ocasião que, no mundo pós-Covid19, certamente algumas ações tomadas nesta crise, permanecerão – como alguns custos de viagens que não acontecerão mais. Segundo ele, o foco precisa ser naquilo que é essencial para operar a empresa. Essa visão, de concentrar-se no que é fundamento, de reduzir custos desnecessários, são adequadas à resiliência das organizações antifrágeis.

3) Fortalecimento do multilocalismo global. Embora todo o sistema econômico esteja sendo afetado, micro e pequenas e médias empresas vivem um momento dramático. Estão tendo de se reorganizar, buscam apoio mútuo, recebem suporte solidário de parte da sociedade. Governos começam a procurar formas para apoiar a sobrevivência delas. A academia e o ecossistema de empreendedorismo se aproxima para aprimorá-las no caminho do digital. Talvez essas experiências possam conduzir a uma positiva uma nova visão de negócios. Provavelmente veremos novos modelos, com forte pegada local e senso de pertencimento. Possivelmente estaremos diante de empresas com alto suporte tecnológico e estratégia global.

4) Emergência da sociedade do propósito solidário como contraponto do divisionismo político. Aqui é mais uma esperança que uma previsão. Na crise, o ser humano exterioriza o que tem de melhor e de pior. Ao mesmo tempo. Com o que tem de melhor cria movimentos inclusivos. Dada a natureza da sociedade em rede, eles surgem de forma fragmentada, formando dezenas, centenas de iniciativas. Talvez venham a se constituir redes de resistência ao divisionismo causado por correntes radicais ou por pragmatistas políticos que colocam seus interesses eleitorais à frente de todo o mais.A experiência do trabalho comunitário gera efeitos colaterais que podem se tornar duradouros. 

Ainda que haja transformações de toda a ordem, é ilusório pensar que no mundo pós-Covid19 tudo será novo. É provável que muita coisa retorne ao exato lugar que tinha no antigo mundo. É provável também que muitas coisas serão piores. Não duvidemos da capacidade do ser humano em manter práticas centenárias, como a escravidão ou o trabalho análogo ao escravo.

Mas é provável, ainda, que a pandemia venha a causar um impacto subjetivo profundo, seja pela escassez produzida, seja pela morte vivenciada, seja pela crença manipulada.

Essas são as reflexões do dia 16 de abril. Como a pandemia se desenvolve em escala exponencial, é impossível o hoje prever o amanhã. Até lá, vamos refletindo como nos tornarmos menos frágeis às adversidades da vida.

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